A disparada do preço do petróleo em meio à escalada da guerra no Oriente Médio beneficiou as principais petroleiras do mundo, que chegaram a quase quintuplicar seu lucro no segundo trimestre. Mais tarde, será a vez de a Petrobras divulgar seus resultados para o período, com a estimativa de salto entre 70% e 102% do lucro, variação inferior à apresentada por suas concorrentes internacionais.
O que aconteceu
Petrobras vai divulgar balanço após o fechamento do mercado. As estimativas apontam que o lucro líquido da petroleira nacional vai saltar para mais de US$ 8 bilhões no segundo trimestre, prevê relatório da XP Investimentos. Se confirmado, o valor vai representar um avanço de 70% em relação ao resultado apurado no mesmo período do ano passado (US$ 4,7 bilhões).
BTG Pactual destaca potencial de captura de margens do refino. Ao indicar que o lucro da Petrobras vai mais do que dobrar (102%) no trimestre, a instituição vê a possibilidade de valorização de 23% para as ADRs da estatal. "Geração de caixa e a capacidade de pagamento de dividendos da Petrobras podem melhorar ainda mais", dizem Rodrigo Almeida e Gustavo Cunha, analistas do BTG.
Petroleira estatal renovou recordes de produção nos últimos meses. Dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) mostram que a Petrobras produziu um recorde de 4,47 milhões de bpd (barris por dia) em junho, alta de 4% em relação a maio e de 19,1% na comparação com junho de 2025.
Integração entre refino e exploração e produção beneficia a Petrobras. Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimentos, ressalta que 70% do petróleo produzido pela estatal é utilizado nas próprias refinarias da empresa. "Isso tem ajudado um pouco na margem", afirma o analista.
A Petrobras entregou o melhor trimestre operacional de sua história. A produção total própria recorde de 3,34 milhões de barris de óleo equivalente por dia, alta de 14,1% em um ano, puxada pelo pré-sal, pelo ramp-up [aumento gradual de produção] de novas plataformas e pela antecipação da P-79 em Búzios, que entrou em operação cerca de três meses antes do previsto.Eduardo Rahal, analista-chefe da Levante Inside Corp
E as rivais?
Lucro estimado para a Petrobras é inferior ao de outras petroleiras. A alta projetada para a estatal é significativamente menor do que a da Chevron (US$ 12,07 bilhões), que quase quintuplicou o lucro em relação ao segundo trimestre do ano passado. A britânica BP viu o lucro mais que dobrar (+140%) e alcançar US$ 3,91 bilhões.
Bases de comparação das empresas eram mais baixas para o período. Os analistas avaliam que as disparadas constatadas pelas petroleiras internacionais são motivadas pelos resultados "muito deprimidos" de 2025. "A Petrobras já vinha de um patamar de lucro elevado, entre os maiores do setor no mundo, e sobre uma base alta o mesmo choque de preços gera um crescimento percentual naturalmente menor", explica Eduardo Rahal, analista-chefe da Levante Inside Corp.
No Brasil, o lucro da Prio (PRIO3) mais do que dobrou no trimestre. A antiga PetroRio reportou lucro líquido de US$ 413,3 milhões entre abril e junho, resultado 169% superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Como consequência, o Ebitda da petroleira atingiu US$ 847,1 milhões, valor recorde para a empresa.
Resultados foram impulsionados pela valorização do petróleo. Os lucros das petroleiras foram justificados por elas como resultado direto do aumento do Brent, referência internacional para o combustível. Os preços médios apresentados superaram os US$ 100 por barril em função da guerra no Oriente Médio e o bloqueio do Estreito de Hormuz, rota de 20% do petróleo mundial.
Os lucros reportados aumentaram em comparação com o segundo trimestre de 2025, principalmente devido a operações com preços de commodities mais altos, margens maiores nas vendas de produtos refinados e impactos de maiores volumes de vendas.Balanço da Chevron
Subsídios aos combustíveis contribuem para avanço da Petrobras. Os benefícios concedidos para limitar a alta do preço do petróleo refletem positivamente na companhia. Em relatório, Regis Cardoso, chefe da área de óleo, gás e petroquímicos da XP Investimentos, afirma que as subvenções "impediram que a estatal absorvesse a maior parte da valorização do Brent apenas por meio das exportações de petróleo e de outras vendas atreladas a referências internacionais".
Defasagem da paridade internacional é mantida pela petroleira estatal. Administrados pela Petrobras, os preços da gasolina e do diesel nos polos da estatal seguem defasados em 24% (R$ 0,61) e 53% (R$ 1,75), segundo a Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis). "O governo usa [a defasagem] para evitar choque inflacionário e isso acaba sustentando as vendas da empresa", avalia Passero.
O efeito líquido do petróleo mais caro segue positivo para a Petrobras, ainda que menor do que seria com repasse pleno.Eduardo Rahal, analista-chefe da Levante Inside Corp
Guerra no Oriente Médio é vista como ameaça para o setor. As empresas ressaltam que, apesar de o conflito impulsionar os lucros, os conflitos geopolíticos representam um risco operacional. "O fechamento do Estreito de Ormuz durante todo o trimestre reduziria a produção do Oriente Médio em aproximadamente 750 mil barris de óleo por dia", destaca a ExxonMobil.
Ambiente de incertezas ainda preocupa para o fim de 2026. Sem perspectivas para o fim do conflito no Irã, as petroleiras e os analistas observam um desafio para os próximos meses. "É uma incógnita muito grande ainda", diz Passero, que complementa: "[a manutenção do bloqueio de Hormuz] pode ser problemática para importação de diesel no Brasil, mas beneficia a exportação de petróleo bruto,"
Uma eventual escalada do conflito teria efeito ambíguo: eleva a receita de exportação e o resultado de exploração e produção, mas amplia a defasagem e a pressão sobre a política de preços, hoje mitigada pelo novo arcabouço de compensação.Eduardo Rahal, analista-chefe da Levante Inside Corp
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