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UOL há 91 d • Dom, 02 Ago 2026 10:00:00 -0300

Designer escolhe viver cinco anos nas ruas e planeja livro e projeto social

Até outubro de 2024, Augusto Espíndola morava sozinho em um apartamento da mãe, em Curitiba. Formado em desenho industrial pela PUC-PR, trabalhou como designer gráfico, produtor de vídeo e desenvolvedor de sistemas. Chegou a ganhar até R$ 15 mil por mês. Hoje vive nas ruas por decisão própria.

A experiência, iniciada em Santos, já passou por cidades de cinco estados e deve durar cerca de cinco anos. Sua rotina é acompanhada por cerca de 30 mil pessoas em seu perfil no Instagram @oaugustoespindola. Ao final, pretende transformá-la em um livro, uma série documental e uma plataforma voltada à assistência social.

"Nem eu sei dizer direito como esse projeto começou. Ele depende de alguns eventos traumáticos da minha vida, uma infecção que eu tive em 2016. Quando você passa quase um ano doente e nenhum médico consegue resolver e você está quase morrendo, começa a reavaliar o que é prioridade", contou ele, no Jardim da Luz, no Bom Retiro, centro de São Paulo.

"Depois, em 2019, tive dois problemas ao mesmo tempo, um profissional e outro no relacionamento. Caí numa depressão. Quando comecei a melhorar, também percebi uma insatisfação com a minha profissão. Se eu tivesse morrido, ninguém ia saber nem que eu passei por aqui. Aí comecei a procurar alguma coisa que envolvesse tudo o que eu tinha acumulado de conhecimento na vida."

A construção inclui também a identidade pública. Augusto Espíndola é o nome que adotou no lugar de César Augusto Camargo Schrega e que pretende oficializar. O cabelo descolorido faz parte do personagem criado para as redes sociais. Embora diga que gostaria de voltar à cor natural, afirma que isso "não encaixa com o personagem".

Alguns interesses da vida anterior permaneceram. "Isso tem a ver com a minha formação. Eu sou designer, estudei história da arte. Um dos meus grandes objetivos quando cheguei a Santos foi dormir embaixo do monumento da Tomie Ohtake. Eu cheguei lá e pensei: ‘Preciso ir ver a Tomie Ohtake’. É algo que eu gostaria de fazer mais, mas talvez fique para uma segunda fase ou para outro projeto."

Ele se referia à escultura de aço vermelho instalada no Emissário Submarino, criada pela artista nipo-brasileira para o centenário da imigração japonesa. Espíndola continua procurando esculturas, monumentos e obras públicas nas cidades por onde passa.

Esse interesse também aparece nos vídeos que publica. Em um vídeo, ele percorre o Jardim da Luz, no centro de São Paulo, e apresenta algumas das esculturas espalhadas pelo parque. O material havia sido gravado numa passagem anterior pela cidade e foi republicado recentemente.

O projeto começou a ganhar forma em uma consulta com a psicóloga, quando ele se lembrou de uma conversa antiga com uma amiga de São Paulo. O maior medo dela era um dia precisar morar na rua. Foi então que começou a inverter a pergunta.

"E se não for a pior coisa que existe? E se não for tão ruim? Aquilo começou a gerar um monte de outras perguntas. Foi daí que nasceu o projeto."

Antes de sair de Curitiba, Espíndola passou quase um ano preparando a experiência. Conversou com pessoas em situação de rua, fez saídas curtas, passou uma semana dormindo nas calçadas e realizou um piloto em São José dos Pinhais, município da Grande Curitiba. Só então decidiu iniciar a viagem, em outubro de 2024.

"Eu não podia simplesmente pegar uma mochila e sair. Eu precisava saber se isso funcionava, se eu conseguiria me adaptar e se o projeto fazia sentido. Fiz testes, dormi alguns dias fora de casa, fiz um piloto. Eu planejei cada mínimo detalhe. Queria reduzir ao máximo as variáveis que pudessem atrapalhar a experiência. Quando fui para Santos, eu já tinha uma boa ideia do que ia encontrar."

A decisão também alterou a relação com a família. Espíndola morava num apartamento da mãe e, no início da viagem, os dois conversavam diariamente por telefone. Com o tempo, esse contato ficou mais espaçado. No dia da entrevista, fazia cerca de três semanas que eles não se falavam.

Segundo ele, o distanciamento aconteceu aos poucos, à medida que a rotina nas ruas foi se tornando permanente. A mãe continua acompanhando o projeto, mas já compreendeu que a decisão de viver dessa forma não seria revertida por insistência da família.

Ao longo da viagem, ele procura sobreviver da mesma forma que observa pessoas na mesma situação. Em Santos, vendeu balas na praia e trabalhou com reciclagem. Em Vila Velha (ES), descarregou caminhões. Em São Paulo, recolhe latinhas. Diz evitar escolhas que, na avaliação dele, alterariam o projeto.

"Eu demorei quase um ano para colocar um Pix no meu perfil. Muita gente perguntava por que eu não aceitava ajuda, mas eu precisava entender primeiro como funcionava aquela realidade. Se eu começasse recebendo dinheiro desde o primeiro dia, a experiência deixaria de ser a mesma", conta.

"Também evito dormir em albergues porque isso muda completamente a dinâmica. Não estou dizendo que ninguém deva fazer isso. É uma regra que estabeleci para este projeto."

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