Quase três meses de ser vítima de tentativa de feminicídio dentro de casa, a jovem Ana Clara Oliveira, 21, fez um vídeo hoje para mostrar, pela primeira vez, as mãos reimplantadas após ser atacada pelo marido e pelo cunhado a golpes de foice no dia 1º de maio, em Quixeramobim (CE).
"Estou sentindo muita alegria por essa etapa do meu processo, e as cicatrizes são as marcas do meu milagre de DEUS. Sinto que aos poucos minha vida está voltando à normalidade", disse a jovem ao UOL.
Clara ficou 29 dias internada no Instituto Doutor José Frota, em Fortaleza, onde passou por uma cirurgia que reimplantou as mãos direita (totalmente decepada) e esquerda (parcialmente decepada). Ela comemora o fato de não precisar mais usar talas de proteção em nenhum dos punhos.
Primeiro, há alguns dias, foi retirada a tala do braço esquerdo. Hoje o médico tirou do direito". No caso do braço esquerdo, eu ainda estou usando o curativo porque tem uma pequena filetinha [ramificação final e extremamente fina de um nervo]. Quando ficar 100%, também ficarei sem precisar usar curativo.Ana Clara
Além da boa cicatrização, a jovem conta que está conseguindo fazer algumas atividades que não conseguia, como levantar uma colher e mexer no celular (que ela aprendeu a fazer com os pés enquanto estava internada.
"O avanço, apesar de ser pouco, já me deixa fazer algumas atividades simples, alguns movimentos básicos", diz.
"Não sinto ainda a sensibilidade, pois o nervo leva em torno de uns seis meses para se reconstruir —ele cresce em torno de 1 milímetro por dia", explica ela, que segue morando em Fortaleza para poder dar seguimento ao tratamento.
Para recompor os movimentos, ela passa por sessões diárias de fisioterapia e ainda não há previsão para finalização.
O grande desejo de Clara é recuperar os movimentos que a tornem de novo capaz de se comunicar com a mãe, Petiane Antero de Oliveira, 41, que é surda. "Eu não consigo ainda, mas eu vou ser a melhor amiga da fisioterapia porque com ela os movimentos vão voltar", confia.
Irmãos denunciados
Os irmãos Ronivaldo Rocha dos Santos, 40, e Evangelista Rocha dos Santos, 34, foram denunciados pela tentativa de matar Ana Clara com golpes de foice.
No relatório de indiciamento, o delegado William Lopes classificou o crime como feminicídio tentado, por se tratar de uma situação de violência doméstica, e apontou dois agravantes: dissimulação (quando o suspeito engana para matar) e uso de meio cruel. Em caso de condenação, a pena pode aumentar de 1/3 a 50%.
Ainda de acordo com o delegado, um familiar da vítima disse em depoimento que, dois meses antes da tentativa de feminicídio, Ronivaldo já tinha ameaçado cortar as mãos dela.
Como o caso está sob segredo de Justiça, a coluna não conseguiu identificar o advogado dos irmãos. O espaço está aberto para manifestação.
Dinâmica do crime
O delegado conta que o casal brigou na noite do dia 30, e Ana expulsou Ronivaldo da casa onde moravam juntos havia cerca de dois anos. "Depois disso, ele foi buscar o Evangelista em casa com objetivo exclusivo de executá-la", diz Lopes.
A investigação apontou também que, durante a briga, Ana arremessou uma pedra no vidro do carro de Ronivaldo. Nas imagens de câmeras de segurança, é possível ver a discussão dos dois e a cobrança que Ronivaldo faz à jovem pelo vidro quebrado do veículo.
Após a discussão, Ana conseguiu fugir e entrou em casa, mas Evangelista pulou o muro com uma foice e a atingiu com vários golpes.
No final do vídeo, é possível ouvir as agressões dentro da casa. Segundos depois, Evangelista volta, e Ronivaldo pergunta se ele matou Ana Clara. Ao ouvir que "sim", Ronivaldo responde: "Tu acabou [com a] nossa vida". Em entrevista ao Fantástico, a jovem contou que enganou os irmãos para que eles fugissem. "Eu me fiz de morta. Eu realmente me fiz de morta."
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.
Deixe seu comentário
O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.