A histórica parceria comercial entre Brasil e Argentina enfrenta uma tempestade perfeita em 2026, combinando a forte recessão no país vizinho, o avanço agressivo da China no mercado automotivo sul-americano e, agora, uma nova camada de incerteza diplomática. Enquanto o empresariado tenta proteger negócios que já encolheram quase 20% no primeiro semestre deste ano, os ruídos políticos entre Brasília e Buenos Aires ameaçam travar a busca por soluções conjuntas para reverter a perda de espaço da indústria brasileira.
O que você precisa saber
O peso do ruído político adiciona apreensão ao setor produtivo. Embora analistas e empresários defendam que o comércio é guiado por contratos e custos, o recente desgaste diplomático acende alertas. Há uma semana, o presidente argentino, Javier Milei, subiu ao palanque em São Paulo para atacar o presidente Lula (PT) e o STF (Supremo Tribunal Federal). O episódio provocou a convocação do embaixador argentino pelo Itamaraty e gerou temores em setores industriais de ambos os lados da fronteira de que a falta de diálogo institucional dificulte negociações bilaterais fundamentais e acelere a perda de espaço do Brasil para concorrentes asiáticos.
Essa não é a primeira crise a testar a resiliência comercial entre os vizinhos, que registra ciclos de integração seguidos por retrações. Na década de 1990, a criação do Mercosul e a política industrial automotiva de Brasil e Argentina impulsionaram as trocas comerciais, com o Brasil acumulando déficits temporários.
Em 2001, o colapso da lei que equiparava o peso argentino ao dólar reduziu a venda de produtos brasileiros ao país vizinho. O fluxo de negócios só voltou a crescer consistentemente nos anos seguintes, com o recorde de US$ 39,6 bilhões em compras e vendas mútuas (corrente de comércio) em 2011. Novas recessões desidrataram a parceria nos anos seguintes, até o intercâmbio esboçar reação no ano passado, com US$ 31,2 bilhões negociados.
Austeridade e China pelo caminho
O primeiro semestre de 2026 sinaliza nova desaceleração no comércio bilateral. Sob as regras de austeridade de Milei, as vendas brasileiras caíram 19,4% no período, com apenas US$ 13,8 bilhões na corrente de comércio. Milei eliminou subsídios para as tarifas de luz, gás e transporte no início do ano, o que derrubou a renda das famílias. O aperto financeiro reduziu a venda de veículos e eletrodomésticos exportados pelo Brasil, revertendo o bom desempenho comercial do ano passado.
A mudança nas regras de importação também tirou espaço da indústria brasileira. O governo argentino zerou as tarifas para a compra de até 50 mil veículos elétricos e híbridos em 2026 e reduziu a burocracia na alfândega. Essa decisão barateou os automóveis asiáticos, atingindo as linhas de produção brasileiras. As montadoras da China já fornecem um em cada três automóveis que a Argentina compra no exterior.
Mercado estratégico
A vantagem brasileira está justamente no tipo de produto negociado com a Argentina. A venda para a China de matérias-primas básicas, como soja e minério de ferro, garante ao Brasil volume financeiro, mas emprega poucos trabalhadores devido à intensa mecanização das fazendas e das minas. Já a montagem de um veículo no Brasil para o mercado argentino exige a compra de aço, vidro, borracha e componentes eletrônicos de outras fábricas nacionais? uma rede de fornecedores que garante o funcionamento do parque industrial brasileiro e sustenta salários superiores aos pagos no setor de matérias-primas.
As seguidas crises na Argentina vêm reorientando as exportações brasileiras. "O principal fator é a crise econômica recorrente da Argentina, não uma substituição deliberada de parceiros", avalia o professor de Economia e Finanças da FGV-SP, Gustavo Pessoa. As instabilidades no país vizinho reduziram sua capacidade de compra ao mesmo tempo que o Brasil passou a depender cada vez mais do comércio de commodities para a Ásia. Ainda assim, o vizinho ocupa o terceiro lugar no ranking de exportações brasileiras, atrás de China e EUA, e a quarta posição nas importações, superado também pela Alemanha.
Apesar dos desgastes políticos, o Mercosul garante as trocas comerciais. "O Mercosul tem mecanismos técnicos e políticos que mantêm o comércio funcionando entre os dois países", afirma o economista e professor de Relações Internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), Roberto Uebel. Embora os conflitos ideológicos dificultem o diálogo para novos acordos comerciais, eles não interrompem o fluxo diário de mercadorias, diz.
Para fugir da briga política, empresas brasileiras e argentinas priorizam contratos e custos, diz Pessoa. "O setor privado olha demanda, preço, logística, câmbio, crédito e prazo de entrega", diz o professor, que também é membro do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo (Corecon-SP). "O empresário atravessa ruídos políticos quando há contratos, mas não compensa sozinho a falta de financiamento, a escassez de dólares e a incerteza regulatória."
Se essa blindagem de mercado enferrujar, o setor mais atingido será a indústria automotiva. Os recentes acordos comerciais da Argentina com a China afetam as montadoras instaladas no Brasil, "seguido por máquinas, produtos químicos, celulose e eletroeletrônicos", diz Uebel.
A piora dessa parceria de manufaturados seria um obstáculo aos planos de reindustrialização do Brasil.
O risco é relevante porque a Argentina compra exatamente o tipo de produto que o Brasil precisa exportar mais para se reindustrializar.Gustavo Pessoa, da FGV-SP e Corecon-SP
O comércio Brasil-Argentina*
*Todos os dados históricos referem-se a valores nominais da época, sem atualização pela inflação do período.
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