Três anos e meio atrás, Hong Kong foi a minha porta de entrada para a China. Uma das surpresas foi o quanto seus moradores buscavam agora a China e sua história. Havia dois novíssimos museus. Mas, entre o M+, de arte contemporânea, como a da japonesa Kusama, e o Museu do Palácio, de antiguidades da Cidade Proibida, as filas eram apenas para o segundo.
Essa redescoberta chinesa, fui confirmar depois, está por todo o país, estimulada pela ascensão econômica. Da animação "Ne Zha 2" ao game "Black Myth: Wukong", são os chineses que, antes de mais nada, estão "chinamaxxing". A evidência mais recente é a série "A Protagonista".
Finalmente acabei de ver os 48 capítulos, quantidade comum para as séries chinesas e que as aproxima das novelas brasileiras. Foi apresentada no horário nobre da CCTV-1, a Globo daqui, e no serviço de streaming da Tencent. Retrata a trajetória de uma atriz da Ópera de Qinqiang, gênero regional do centro-norte do país, de características mais cruas do que a Ópera de Pequim, com acrobacia e fogo.
É por vezes comparada, inadequadamente, ao rock. Para acentuar esse paralelo, há cenas em que personagens acompanham shows de rock chinês e uma música da emblemática banda Black Panther, dos anos 1980/90 — e no momento minha favorita no QQ Music, o Spotify daqui.
Apesar de capítulos carregados de passagens trágicas, caso do 44, que dividiu a internet chinesa, foi a maior audiência de horário nobre no ano, na TV aberta, e bateu o recorde da plataforma. Foi também um sucesso comercial, acumulando 27 marcas diferentes.
Como aconteceu com Xangai após a série "Blossoms Shanghai", de Wong Kar-wai, "A Protagonista" levou ainda mais turistas internos à província de Shaanxi, onde fica Xi'an. Significativamente, a série alcançou esses resultados não por reunir jovens ídolos, caminho mais comum no país, mas pela história e pelos atores.
Na série, a atriz Liu Haocun faz a fase adolescente-adulta da protagonista Yi Qin'e. É persistente, mas incapaz de lidar com as disputas dentro da companhia e em torno dela mesma. É treinada às escondidas por mestres envelhecidos, que vislumbram o que pode alcançar —e como a Ópera de Qinqiang pode sobreviver através dela.
Sua estreia como protagonista no capítulo 18, forçada ao palco pelo maior de seus mestres, Gou Zunzhong, feito por Sun Hao, é para mim a cena mais marcante.
Política e teatro, agora como farsa
Com sinal oposto, de farsa, o filme "O Palco" estreou também com sucesso no ano passado. Mostra uma China caótica no período republicano dos chefes militares, no início do século 20. Um deles força uma companhia de Ópera de Pequim a mudar o final da peça "Adeus, Minha Concubina" para que o personagem com que se identifica, o Rei Chu, não se mate.
"O Palco" usa a comédia para explorar como artistas lutam para preservar seu ofício numa situação de convulsão política. É uma versão escrachada, por assim dizer, do filme chinês "Adeus, Minha Concubina", de 1993, que retrata tragicamente uma companhia durante a Revolução Cultural.
Chineses, finalmente
Pela primeira vez, chineses levaram a Medalha Fields, a maior premiação mundial de matemática, e passaram a ser comicamente disputados por franceses e americanos. Ambos estudaram na Universidade de Pequim, mas são agora professores em duas universidades americanas e uma francesa.
O presidente Emmanuel Macron chegou a dar um telefonema em que, para mídia social, filmou a si mesmo falando de seu orgulho por "nossa pesquisa e nossa formação". O New York Times os descreveu como "duas pessoas que nasceram na China", não chineses, e destacou as universidades nos EUA.
Na China, entre todo tipo de reação online, teve gente no Xiaohongshu (RedNote) que acusou a matemática Wang Hong de só ter conseguido pontuar no Gaokao, o Enem chinês, por causa da política de pontos extras para quem nasce em regiões mais pobres. Ela é de Guangxi, perto do Vietnã.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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