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UOL há 90 d • Sex, 31 Jul 2026 10:57:28 -0300

França congela bens de polêmica comentarista acusada de fazer propaganda para a Rússia

A França congelou nesta sexta-feira (31), por seis meses, os bens da comentarista russa Xenia Fedorova, acusada pelas autoridades francesas de atuar como "porta-voz de Moscou" na imprensa francesa. Xenia é ex-diretora da emissora estatal russa RT (Russia Today). O canal foi fechado na União Europeia após as sanções adotadas contra a Rússia após o país invadir a Ucrânia, em 2022.

O congelamento dos bens, publicado no Diário Oficial francês, tem como objetivo impedir a prática de "novos atos de ingerência", segundo o Ministério da Economia e das Finanças da França. A medida proíbe a posse ou o uso de "fundos ou recursos econômicos em benefício próprio, de pessoas jurídicas ou de quaisquer outras entidades que ela controle, detenha ou que atuem conscientemente em seu nome".

Fedorova, que já havia sido alvo de uma ordem ministerial de expulsão na quarta-feira (29), denunciou o que classificou como "pressão política". Desde então, ela está em prisão domiciliar e deve se apresentar diariamente a uma delegacia.

"Meu comportamento consiste em viver na França há quase 10 anos respeitando a lei, pagando meus impostos, mas também tendo uma opinião e expressando-a no exercício do meu trabalho como jornalista", escreveu Fedorova em publicação no X.

Acusada de ser "um instrumento das campanhas de desinformação conduzidas pelas autoridades russas" para "desestabilizar a ordem pública" na França, a comentarista participa de programas da CNews, da Europe 1 e do semanário JDNews. Os veículos pertencem ao grupo do bilionário conservador francês Vincent Bolloré.

"Estamos assistindo a uma forma completamente nova de pressão política, que tem um único objetivo: censurar opiniões que não correspondem ao discurso oficial", afirmou Fedorova no X, em sua primeira reação às medidas. Ela anunciou que pretende recorrer à Justiça. Seu advogado, Emmanuel Piwnica, afirmou que sua cliente é vítima de uma "perseguição" após o congelamento de seus bens por seis meses.

Le gouvernement d'Emmanuel Macron a décidé que mes propos tenus publiquement sur les plateaux de CNEWS et d'Europe 1, ainsi que mes chroniques publiées dans les pages du JDNews, représentaient un danger immédiat pour la République, et a prononcé mon expulsion en urgence absolue....? Xenia Fedorova (@xfedorova) July 31, 2026

Le gouvernement d'Emmanuel Macron a décidé que mes propos tenus publiquement sur les plateaux de CNEWS et d'Europe 1, ainsi que mes chroniques publiées dans les pages du JDNews, représentaient un danger immédiat pour la République, et a prononcé mon expulsion en urgence absolue....

A emissora Canal+ e o grupo Lagardère, que mantém vínculos profissionais com a comentarista russa, denunciaram na quarta-feira, em comunicado, "um atentado particularmente grave à liberdade de expressão".

'Propaganda do Kremlin'

Xenia Fedorova, de 45 anos, já foi impedida de permanecer na Alemanha, onde viveu antes de se mudar para a França. Em uma longa mensagem publicada nesta sexta-feira, ela afirmou que "aqueles que celebram essa decisão carecem de lucidez, porque hoje sou eu, e amanhã será qualquer pessoa que ouse se expressar fora do pensamento único".

O ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, afirmou na quinta-feira à emissora BFMTV que a ordem de expulsão "não constitui um atentado à liberdade de expressão". Segundo o ministro, a decisão é fundamentada e se baseia em diversas declarações da comentarista.

"Ela reproduz sistematicamente a propaganda do Kremlin sobre o papel da França, sobre o que acontece na Ucrânia e sobre as razões e motivações da agressão russa contra a Ucrânia. Reproduz palavra por palavra a narrativa oficial da Rússia e intervém no debate político francês sobre esses temas", declarou Nuñez nesta sexta-feira, à rádio RTL.

Para Thibaut Bruttin, diretor-geral da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Xenia Fedorova não pode ser considerada jornalista, e a ordem de expulsão emitida pelo governo francês representa uma medida necessária para proteger o espaço de informação do país.

Segundo ele, há meses, "ou até anos", a comentarista reproduz em horário nobre argumentos alinhados ao Kremlin. Bruttin citou como exemplo declarações de Fedorova de que a guerra na Ucrânia seria apenas um conflito local prolongado pelo Ocidente.

A polêmica em torno de Fedorova já havia ganhado força em maio, quando veio à tona a renovação de sua autorização de residência por dez anos, em 2024. O governo francês e o presidente Emmanuel Macron a classificaram como "propagandista" do Kremlin, enquanto eurodeputados pediram que a União Europeia adotasse sanções contra ela.

Influência eleitoral

O espaço cada vez maior ocupado por Fedorova nos meios de comunicação ligados ao grupo Bolloré tem despertado preocupações sobre uma possível influência no debate público francês, especialmente às vésperas da campanha para a eleição presidencial de 2027.

O caso provocou diversas reações dentro do partido de extrema direita Reunião Nacional (RN), cuja líder, Marine Le Pen, enfrentou críticas durante a eleição presidencial de 2022 por seus vínculos com a Rússia.

O eurodeputado do RN Thierry Mariani classificou a medida como um ataque à liberdade de expressão e acusou o governo de tentar silenciar uma voz dissidente.

O prefeito de Fréjus, David Rachline, uma das principais figuras do partido, afirmou no X, na quarta-feira, que as ordens de expulsão dirigidas a "criminosos perigosos" permanecem sem resposta. "Por outro lado, para expulsar uma voz dissidente, o Estado sabe demonstrar uma eficácia notável", ironizou.

O deputado socialista Arthur Delaporte apoiou a expulsão, embora tenha criticado do governo francês, que, segundo ele, demorou para reagir. De acordo com o deputado, a presença de Fedorova em uma das principais emissoras de informação da França é motivo de preocupação há tempo.

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