Professor conta como a língua portuguesa foi construída no Brasil e como a literatura brasileira foi estruturada.
Em 05/11/2026 12h55 , atualizado em 05/11/2026 12h56
Nesta quinta-feira, 5 de novembro, é comemorado o Dia Nacional da Língua Portuguesa, determinado oficialmente em 2006 pelo Congresso. A data é uma boa oportunidade para professores levarem aos alunos a reflexão da língua como um patrimônio vivo e não somente um instrumento de comunicação.
Kim Kazu Pacheco Pontes, professor de Língua Portuguesa da SIS Brasília, aponta que a Língua Portuguesa também faz parte da cultura, história e sociedade brasileira. "Esse dia permite expor como a língua guarda memórias, expressa experiências e participa da construção da identidade de um povo", afirma.
Trazendo para a realidade brasileira, entender a Língua Portuguesa como um patrimônio vivo ajuda a entender que o idioma que falamos hoje é fruto de um longo processo histórico de encontros culturais, conflitos, mudanças e oportunidades.
Nesse processo de entender e reconhecer a relação profunda entre língua, cultura e identidade, a literatura também pode ser utilizada como um instrumento, já que a literatura é uma das manifestações mais expressivas de uma língua.
Kim Kazu explica que isso acontece porque "transforma as palavras em memória, experiência, imaginação e reflexão, não apenas sobre a sociedade e seus feitos, mas também sobre os pensamentos de cada autor, seja ele criança ou adulto".
Apesar disso, o professor destaca que a língua não pertence somente aos escritores desse idioma, mas a seus falantes, que estão diariamente incorporando novas palavras, modificando expressões e criando novos sentidos, enquanto desenvolvem novas formas de se comunicar.
Tópicos desta notícia
Língua Portuguesa no Brasil
No contexto brasileiro, é importante destacar que o português falado aqui é marcado por uma história bastante complexa, uma vez que o idioma é diferente do que chegou ao território trazido pelos portugueses.
A língua portuguesa no Brasil foi transformada a partir do contato com diferentes povos, culturas e dialetos, especialmente de origem africana e dos povos originários, explica Kim Kazu Pacheco Pontes.
"Comemorar o Dia Nacional da Língua Portuguesa também significa reconhecer a diversidade de maneiras pelas quais essa língua se manifesta, em toda a sua complexidade. Reconhecer que nossas variedades linguísticas, nossos sotaques e nossas expressões regionais revelam diferentes experiências culturais e formas de pertencimento ao nosso país", afirma.Anuncie aqui
"Comemorar o Dia Nacional da Língua Portuguesa também significa reconhecer a diversidade de maneiras pelas quais essa língua se manifesta, em toda a sua complexidade. Reconhecer que nossas variedades linguísticas, nossos sotaques e nossas expressões regionais revelam diferentes experiências culturais e formas de pertencimento ao nosso país", afirma.
O professor lembra que a língua não é somente utilizada para contar a história de um povo, ela também é construída por essa população, todos os dias.
Identidade brasileira pela literatura brasileira
A literatura também é uma ferramenta para a construção do reconhecimento da identidade brasileira. Historicamente, o processo literário precisou construir e afirmar sua identidade ao longo do tempo.
Kim Kazu explica que esse processo foi marcado pelo diálogo e tensão com diversas tradições. Diante desse cenário, o Dia Nacional da Língua Portuguesa é um marco na demarcação da literatura brasileira como parte da criação de uma identidade cultural nacional, construída por um povo que lutou por seu reconhecimento.
Após a Independência, o professor conta que houve um empenho por parte de escritores e críticos em reconhecer e divulgar obras que poderiam representar a literatura propriamente brasileira.
"A identidade da nossa literatura não surgiu pronta: ela foi sendo construída por diferentes gerações, por meio da produção artística, da crítica e da circulação das obras de diversos momentos, se concretizando em movimentos culturais e literários", explica.
História da literatura brasileira e recuperação de autores
A busca pela construção de uma tradição para a literatura brasileira foi feita a partir de escolhas, que levaram à história da literatura brasileira como é contada. O processo de seleção, reconhecimento e preservação consagrou alguns autores, enquanto outros ficaram pouco conhecidos ou foram deixados à margem.
Para Kim Kazu, esse processo permite uma reflexão sobre as relações sociais e culturais que determinam quais vozes são dignas de receber espaço e representar uma expressão cultural do país, como a literatura.
É nesse cenário que se faz necessário que a literatura brasileira seja constantemente revisitada, de forma com que cada geração possa "encontrar novas perguntas nas obras do passado, reconhecer autores que não receberam a devida atenção e ampliar as perspectivas a partir das quais contamos nossa história".
Nesse processo de seleção, muitos autores foram deixados de fora, em sua maioria mulheres, pessoas negras e pertencentes a outros grupos historicamente marginalizados. Ter dificuldade em acessar espaços de publicação, circulação e reconhecimento não significa que esses autores já não existiam.
O resgate desses autores que não tiveram esses espaços ao longo da história abre espaço para recuperar perspectivas históricas que ajudam a compreender o Brasil de outra maneira.
Esse é o caso do resgate de autores como Maria Firmina dos Reis, que permite questionar a sociedade brasileira a partir de um entendimento que rompe com representações predominantes naquele contexto.
Kim Kazu ainda destaca que a retomada dessas narrativas perdidas não significa a substituição de autores tradicionalmente consagrados, e sim a ampliação de um repertório literário, conhecendo e reconhecendo novas produções que foram marginalizadas, mas caracterizam a literatura brasileira muito mais diversa do que foi historicamente apresentada.
O professor defende que, como a língua portuguesa, a literatura brasileira também é uma tradição viva que segue sendo reinterpretada e transformada. Assim, a história da literatura brasileira ajudou a construir a memória do país e a pode, para as gerações futuras, contar histórias diversificadas.
Por Jade Vieira Jornalista