Há partidas que ficam na memória pelo resultado. Outras, por uma atuação individual. E há aquelas em que jogo, jogador e narração se encontram de um jeito tão perfeito que, anos depois, é difícil lembrar de uma coisa sem lembrar da outra.
3 de novembro de 2017 foi uma dessas noites.
Era uma sexta-feira na Capital One Arena, em Washington DC. A temporada da NBA ainda estava começando e o Cleveland Cavaliers vivia um momento de ajustes. Na terceira semana da fase regular, o time acumulava apenas três vitórias em oito partidas e tentava se reencontrar depois de uma offseason de muitas mudanças.
Era a primeira temporada sem Kyrie Irving, negociado com o Boston Celtics em uma troca que levou Isaiah Thomas e Jae Crowder para Cleveland. Ao mesmo tempo, veteranos importantes como Derrick Rose, Dwyane Wade e Jeff Green haviam chegado para reforçar uma equipe que que tinha sido derrotada para o Golden State Warriors nas finais da temporada anterior.
Do outro lado estava um Washington Wizards que chegava àquela sexta-feira com quatro vitórias e três derrotas. Bradley Beal, John Wall e companhia prometiam tornar a noite difícil para Cleveland.
Beal terminaria com 36 pontos. O bonitão Kelly Oubre Jr. sairia do banco para marcar 21, com cinco bolas de três. Wall somaria 13 pontos e 15 assistências.
Mas nada disso seria suficiente porque, do outro lado, LeBron James decidiu tomar conta do jogo.E é justamente aí que, para mim, aquela partida deixa de ser apenas uma grande atuação individual e passa a carregar também a voz de Rômulo Mendonça.
Eu já conhecia o Rômulo pelas redes sociais. Havíamos conversado rapidamente algumas vezes e eu já era fã do trabalho dele, especialmente das narrações de beisebol. Depois, descobri nele algo que nos aproximaria ainda mais: a paixão pelo basquete. Foi assim que ele se tornou não apenas alguém que eu admirava profissionalmente, mas um grande amigo.
Naquela noite, enquanto LeBron crescia em quadra, Rômulo crescia na transmissão.
No terceiro quarto, LeBron marcou 14 pontos. No último, foram mais 19. A cada cesta, a sensação era de que estávamos assistindo a algo que não caberia apenas no box score. LeBron atacava a cesta, acertava arremessos, dominava o jogo. E Rômulo traduzia aquilo do jeito dele: com criatividade, entusiasmo e uma paixão pelo esporte que nunca precisou ser ensaiada.
"LeBron, ladrão! Roubou meu coração!"
Era Rômulo, claro. Mas naquele momento poderia ser qualquer um de nós diante do que LeBron estava fazendo.
Ele terminaria a partida com 57 pontos, 11 rebotes, sete assistências, três roubos de bola e dois tocos, depois de quase 43 minutos em quadra. Uma atuação que representa a segunda maior pontuação de sua carreira e sua maior pontuação com a camisa dos Cavaliers. O resultado do jogo foi Washington 122 x 130 Cleveland.
Talvez seja por isso que o bordão tenha sobrevivido tão bem ao tempo. Ele não foi colocado sobre o jogo. Ele nasceu do jogo. Nasceu daquela atuação, daquela sexta-feira em Washington DC e da capacidade que Rômulo tem de encontrar as palavras que nós, do outro lado da tela, ainda estávamos procurando.
Comecei minha trajetória no jornalismo esportivo em 1995, na Band. Ainda naquele ano fui para a ESPN, onde fiquei até 2002 e para onde voltei em 2015, depois de um ato de clamor popular. Em mais de três décadas acompanhando esporte, vi muitas atuações históricas e ouvi muitas grandes narrações. Algumas delas, porém, se tornam inseparáveis.
Para mim, os 57 pontos de LeBron e aquela frase de Rômulo pertencem à mesma lembrança.
O box score conta o que LeBron fez naquela noite.
Rômulo contou o que a gente sentiu.
E talvez seja exatamente por isso que, nove anos depois, ainda seja impossível lembrar de um sem ouvir a voz do outro.
O dia 3 de novembro também ocupa um lugar especial na história da NBA. Em 1995, Kevin Garnett iniciava sua trajetória profissional depois de sair diretamente do High School. Vindo do banco do Minnesota Timberwolves, anotou oito pontos na derrota por 95 a 86 para o Sacramento Kings, na Califórnia.
Exatamente um ano depois, foi a vez de Kobe Bryant dar seus primeiros passos na liga. Com a camisa roxa e dourada do Los Angeles Lakers, o jovem de 18 anos ficou apenas seis minutos em quadra na vitória por 91 a 85 justamente sobre o Minnesota Timberwolves, no antigo Great Western Forum.
Duas estreias discretas em números, mas que, vistas hoje, marcaram o começo das carreiras de dois jogadores que ajudariam a definir uma geração da NBA.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
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