Um novo relatório do mais respeitado instituto não partidário de pesquisa eleitoral dos Estados Unidos estima que o Partido Democrata vai recapturar entre 12 e 25 assentos na Câmara, na eleição de terça-feira (3). A previsão do Cook Political Report confirma a expectativa de que a oposição vai ter maioria folgada na Câmara durante os dois anos finais da Presidência de Donald Trump.
O controle do Senado, segundo o Cook Report, vai ser decidido em sete estados, mas a vantagem dos democratas nas pesquisas ainda se situa na margem de erro.
Em janeiro de 2027, o deputado Hakeem Jeffries, 56, atual líder da minoria democrata, deve ser empossado como primeiro negro a presidir a Câmara e o primeiro nativo do Brooklyn, em Nova York. Ao contrário da onipresente antecessora Nancy Pelosi, a mais poderosa mulher da história política dos EUA, que perdeu a presidência da Casa na derrota democrata de 2022, Jeffries ainda não é o rosto nacional da oposição —quase metade dos americanos admitiram, numa pesquisa recente, nunca ter ouvido seu nome.
O deputado circulou em vários estados, no final da campanha, aparecendo em comícios de candidatos identificados, como ele, com a ala moderada do partido. Apesar do destaque recente para candidatos insurgentes de simpatias socialistas, são os centristas disputando distritos atualmente dominados por republicanos que devem consolidar a recaptura da maioria.
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O noticiário político de 2012, ano da primeira eleição de Jeffries como deputado federal, hoje soa quase pitoresco. "Hakeem Jeffries: O Barack Obama do Brooklyn?", indagava a manchete do jornal Washington Post. A resposta evidente, para quem comparou o deputado ao ex-presidente em comícios, nos últimos dias, é um inequívoco "não". Mas, se Jeffries nunca foi acusado de exalar carisma num palanque, ele tem deixado claro, recentemente, que confia em outros talentos para desafiar o presidente republicano.
"Ele tem o perfil ideal para isso," diz à Folha Steve Israel, ex-deputado que dirigia o braço eleitoral do partido, o Comitê de Campanha do Congresso e trabalhou próximo a Jeffries. "Quando ele chegou em Washington, logo me impressionou pelo desejo de se envolver com o apoio a candidatos e atuar de forma bastante prática. Há parlamentares que buscam projetos para aumentar sua visibilidade ou para arrecadar fundos. Hakeem estava interessado apenas no trabalho."
No entanto, a falta de protagonismo não é compatível com a presidência da Câmara e nota-se, na capital, uma interrogação entre os democratas sobre a capacidade do deputado de reinar sobre um partido com uma ala esquerda que já o desafiou abertamente.
Numa ironia típica do bazar político, o popular prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, interferiu a favor de Jeffries forçando o vereador nova-iorquino Chi Ossé a desistir de desafiar a reeleição do líder da minoria neste ano. O mesmo socialista-democrático Mamdani cuja candidatura, no ano passado, tanto irritou Jeffries, que ele só o endossou como candidato oficial do partido quando a votação ia começar.
Steve Israel lembra que, por ter nascido e iniciado a carreira no Brooklyn, um microcosmo contencioso de diversidade étnica, religiosa e ideológica, o deputado sabe analisar complexidade. "Ele é intensamente estudioso e não excessivamente emotivo," diz.
Emoções intensas não vão faltar à volta do próximo líder da Câmara. Há uma enorme pressão para punir o presidente republicano e membros do gabinete. Deputados como o jurista constitucional Jamie Raskin, relator do segundo processo de impeachment de Trump, declarou, nesta semana, que não tem medo de partir para o terceiro.
Se pesquisas mostraram que 44% dos eleitores consideram seu voto no Legislativo um protesto contra Donald Trump, a impopularidade do presidente se deve sobretudo a fatos como a inflação, o custo exorbitante dos seguros saúde e à guerra contra o Irã, rejeitada por 71% da população. Mesmo se não obtiverem maioria no Senado, os democratas precisam demonstrar criatividade legislativa para abordar essas questões.
"Ele terá o imperativo político," argumenta Israel, "de garantir que os democratas consigam manter a maioria em 2028. E a única maneira de manter a maioria daqui a dois anos é reeleger os parlamentares que capturaram distritos moderados neste ano."
Procurado pela Folha, Hakeem Jeffries não quis falar sobre esses desafios, em seu estilo disciplinado de não revelar as cartas na manga. Um ex-assessor dos democratas no Congresso, protegido pelo anonimato, disse à revista New Yorker que o deputado é como "arte de quarto de hotel". Esta fama de neutralidade, acredita Steve Israel, que prefere não revelar as conversas regulares que tem mantido com o futuro líder, não deve ser confundida com falta de objetividade e determinação.
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