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UOL há 95 d • Qui, 30 Jul 2026 11:26:04 -0300

Entenda como ondas de calor comprometem o papel das florestas na retirada de CO2 da atmosfera

A França enfrenta nesta semana sua quarta onda de calor em apenas dois meses, um cenário que amplia as preocupações sobre os efeitos das temperaturas extremas não apenas para a população, mas também para os ecossistemas. Entre os impactos observados por pesquisadores está a perda temporária de uma das funções mais importantes das florestas: retirar dióxido de carbono (CO?) da atmosfera.

Durante a forte onda de calor que atingiu o país no fim de junho, cientistas registraram um comportamento incomum em algumas áreas florestais. Em vez de absorver carbono, como ocorre normalmente, determinadas florestas liberaram mais CO? do que conseguiram capturar.

A situação chama atenção porque as florestas desempenham papel central no equilíbrio climático. Por meio da fotossíntese, as árvores absorvem dióxido de carbono e produzem oxigênio. Esse processo ajuda a reduzir a concentração de gases responsáveis pelo aquecimento do planeta e é um dos motivos pelos quais a preservação de áreas florestais é considerada estratégica no combate às mudanças climáticas.

Segundo o agroclimatologista Serge Zaka, as altas temperaturas afetam diretamente esse mecanismo. Quando o calor se torna excessivo, as folhas sofrem danos e a atividade fotossintética diminui. Com isso, as árvores passam a absorver menos carbono e a produzir menos oxigênio. Ao mesmo tempo, continuam realizando sua respiração natural, processo que libera CO? para a atmosfera. O resultado é um desequilíbrio temporário entre a captura e a emissão de carbono.

Morte de árvores amplia risco climático

Uma das consequências mais preocupantes é o aumento da mortalidade de árvores submetidas a períodos prolongados de calor e falta de água. Quando uma árvore morre, sua capacidade de absorver carbono desaparece. Além disso, a decomposição da madeira passa a liberar CO? por meio da ação de fungos e outros microrganismos.

Esse processo agrava ainda mais o balanço de carbono das florestas e reduz sua contribuição para a regulação do clima. Segundo Zaka, sinais desse fenômeno já aparecem em partes do nordeste da França e, de forma mais pronunciada, em regiões da Europa Central. Há áreas florestais que começam a registrar, no conjunto do ano, emissões de carbono superiores à quantidade absorvida.

Para os cientistas, trata-se de um círculo vicioso particularmente preocupante: o aquecimento enfraquece as florestas, as florestas absorvem menos carbono e esse excesso de carbono na atmosfera contribui para intensificar o aquecimento.

Menos sombra e mais aquecimento dentro das florestas

Os impactos provocados pelo calor não se limitam às emissões de gases de efeito estufa. Durante períodos de seca severa, muitas árvores antecipam a queda das folhas para reduzir a perda de água. O resultado é uma paisagem que, em alguns casos, passa a lembrar o outono em pleno verão. Com menos folhas, diminui também a cobertura de sombra oferecida pelas copas. Isso permite que mais radiação solar atinja o solo.

A morte de árvores produz efeito semelhante. À medida que surgem clareiras, o interior das florestas fica mais exposto ao sol. "Pouco a pouco, as árvores enfraquecidas deixam a luz penetrar com mais facilidade na floresta", afirma Zaka. Segundo ele, o aumento da temperatura do solo acelera o aquecimento do ambiente florestal como um todo, criando condições que tornam outras espécies ainda mais vulneráveis.

Adaptação exigirá planejamento de décadas

Especialistas defendem que ainda é possível ajudar as florestas a enfrentar as transformações do clima, mas alertam que os resultados dependem de planejamento de longo prazo. Uma das estratégias estudadas consiste em introduzir gradualmente espécies mais adaptadas ao calor em regiões que tendem a registrar temperaturas mais elevadas nas próximas décadas.

O desafio é que as florestas operam em escalas de tempo muito mais longas do que os ciclos políticos.

"Hoje, as políticas públicas costumam trabalhar com horizontes de cinco anos", afirma Zaka. "A adaptação de uma floresta exige planejamento para os próximos trinta ou cinquenta anos." Segundo ele, uma das possibilidades é favorecer a implantação, no norte da França, de espécies encontradas atualmente em áreas mais ao sul, sem comprometer a biodiversidade local.

"O que as árvores fariam naturalmente ao longo de 20 mil anos, precisamos agora conseguir fazer em cerca de 100 anos", afirma.

A velocidade das mudanças climáticas, concluem os pesquisadores, tornou necessário acelerar processos de adaptação que tradicionalmente ocorreriam ao longo de milhares de anos.

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