O Tesouro Nacional realizou uma nova recompra de títulos no mercado nesta terça-feira (27), numa atuação que já alcança R$ 31,6 bilhões em dois dias. É a maior intervenção desde março deste ano, quando a guerra no Irã elevou o preço do petróleo e trouxe o temor de um repique inflacionário.
O objetivo do órgão é frear a escalada das taxas de juros futuros, que dispararam após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no último domingo (25). O mercado de juros é referência para os custos de financiamento da União e também de empresas.
Até sexta-feira (23), último dia de negócios antes do pleito, os agentes de mercado viam maior probabilidade de eleição de Flávio Bolsonaro (PL), a quem também atribuíam maiores chances de implementar uma agenda fiscal mais robusta. A visão de uma política fiscal mais permissiva sob Lula afeta a expectativa dos agentes sobre a inflação e, consequentemente, sobre a trajetória dos juros.
Só nesta terça, o Tesouro recomprou R$ 16,8 bilhões em NTN-Bs, títulos públicos atrelados à inflação. Foi a segunda maior recompra diária de títulos, em valores nominais, atrás apenas da de 16 de março, quando o Tesouro readquiriu R$ 27,5 bilhões.
Na segunda-feira (26), o órgão já havia recomprado R$ 14,8 bilhões, sendo R$ 7,1 bilhões em prefixados de médio e longo prazo e R$ 7,7 bilhões em NTN-Bs.
A atuação do Tesouro buscou dar apoio ao mercado para encontrar um novo preço de equilíbrio após perder referência diante dos novos acontecimentos. Segundo os relatos de quem acompanha o mercado, houve um movimento massivo de agentes querendo se desfazer de suas posições, o que contribuiu para a desvalorização dos preços atribuídos aos títulos e o aumento nas taxas de juros.
Dada a magnitude desse movimento, alguns participantes do mercado atingiram seus limites de perda, o que deflagrou um comando para se desfazer das posições, reforçando o movimento de venda. Segundo esses relatos, houve um momento em que não havia demanda na ponta compradora, o que criou uma espiral negativa e contribuiu para a volatilidade, considerada extrema.
Num momento como esse, o Tesouro não tem como fazer suas emissões habituais de títulos públicos para se financiar, uma vez que a venda de novos papéis pressionaria ainda mais o mercado e ainda incorporaria à dívida pública um custo exagerado. Por isso, o órgão cancelou todos os leilões desta semana, que previam emissões de títulos prefixados e atrelados à inflação e à taxa básica de juros, a Selic.
A suspensão dos leilões já é uma medida de alívio, mas a decisão da recompra mostra que o Tesouro julgou necessário fazer mais.
Segundo um interlocutor, o Tesouro emite em média R$ 30 bilhões por semana. Por esse raciocínio, cada semana sem emitir novos títulos representa R$ 30 bilhões a menos no caixa para honrar as obrigações do governo. Embora o órgão conte com um colchão de liquidez robusto para lidar com momentos de volatilidade (a reserva estava em R$ 1,2 trilhão em agosto), é de interesse do governo que o mercado retorne à situação de normalidade o mais rápido possível —o que justificaria a intervenção.
A atuação não tem como objetivo segurar os preços ou estabelecer um determinado objetivo como patamar, apenas auxiliar o mercado a encontrar mais rapidamente o novo ponto de equilíbrio, ainda que ele seja mais elevado.
Ao fim desta terça, a avaliação era de que o mercado já demonstra sinais de maior normalidade, embora novas recompras não estejam descartadas. O Tesouro faz a avaliação dia a dia.
Os títulos públicos seguem uma relação inversa entre preço e rentabilidade: quando o preço de um título cai, sua rentabilidade sobe; quando o preço aumenta, a rentabilidade diminui. A vitória de Lula elevou as expectativas para os juros, pressionando os preços dos papéis já emitidos.
Nesse cenário, investidores passaram a exigir retornos maiores para manter esses títulos em carteira, em comparação com os oferecidos por novos papéis. As intervenções do Tesouro procuram reduzir a volatilidade no mercado e aliviar a pressão sobre as taxas.
Para analistas da Warren, as operações sinalizam a preocupação em preservar as condições de funcionamento dos títulos de renda fixa.
"Ao longo das próximas horas e dos próximos dias, devemos ver a atuação do Banco Central no câmbio, para restabelecer a funcionalidade do mercado, e do Tesouro no mercado de títulos, para enxugar o excesso de vendas e ajudar o mercado a encontrar um novo equilíbrio de preços", afirma a instituição em relatório.
Para Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de macro e dívida pública da instituição financeira, o Tesouro não busca defender um nível específico de taxa. "O objetivo é reduzir a disfuncionalidade, não fixar preço. Isso também preserva as condições de financiamento da dívida, porque sem esse tipo de intervenção o mercado ficaria disfuncional por mais tempo."
A atuação do Tesouro foi reforçada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que autorizou novas recompras caso houvesse necessidade. "Hoje a gente pode, sim, ter nova recompra de título do Tesouro. Eu falei com o secretário do Tesouro hoje de manhã e disse para ele que eu autorizo, na medida em que tiverem colocadas as condições e as necessidades de fazer intervenção", disse o ministro a jornalistas na manhã de terça.
Durigan afirmou que a atuação buscou restabelecer parâmetros para o funcionamento do mercado, sem determinar preços para o dólar ou para os títulos públicos. "O mercado se desfazendo de posição pode ficar sem parâmetro e aí fica aquela queda, aquela variação de preço muito alta", afirmou.
Para Isabela Fukase, portfólio manager de renda fixa da Tivio Capital, as recompras contribuíram para reduzir a pressão sobre o mercado de títulos públicos, especialmente em um ambiente de menor liquidez e maior volatilidade.
"Muitos gestores precisaram reduzir posições e ajustar o nível de risco das carteiras, e a atuação do Tesouro ajudou a absorver parte desse fluxo. Além de ampliar a liquidez, as recompras também foram importantes para restabelecer referências de preço para os ativos", afirma.
As operações são semelhantes às realizadas em março, quando a alta do petróleo em meio à guerra no Irã elevou as expectativas para a trajetória dos juros. Na ocasião, o Tesouro recomprou R$ 43,6 bilhões em títulos em dois dias, na maior intervenção em mais de uma década.
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