O resultado do segundo turno das eleições entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nesse domingo (25), deve provocar reação nos mercados financeiros no dia seguinte. Analistas e gestores ouvidos pelo UOL avaliam que uma vitória do senador poderia favorecer a Bolsa brasileira e pressionar o dólar e os juros para baixo, enquanto a reeleição do presidente poderia produzir o movimento contrário.
A intensidade da reação, porém, divide opiniões. Entre os quatro especialistas consultados, há desde expectativas de oscilações moderadas até a possibilidade de uma queda acentuada da Bolsa em caso de vitória de Lula. A margem do resultado também pode influenciar os negócios, assim como os primeiros anúncios sobre a equipe econômica do próximo governo.
Se Flávio vencer
Margem da vitória pode determinar a reação da Bolsa. Roberto Motta, estrategista macro da Genial Investimentos, avalia que uma vitória expressiva de Flávio abriria mais espaço para valorização das ações, enquanto um resultado apertado poderia manter a incerteza e limitar os ganhos. "A primeira pergunta é ganhar de quanto?", diz Motta.
Diferença entre os candidatos pode pesar sobre os investidores. Motta compara uma vitória por 53% a 47%, que considera expressiva, com um resultado de 50,5% a 49,5%. Os números são exemplos hipotéticos, não previsões eleitorais. Segundo ele, uma disputa muito apertada poderia alimentar receios de questionamentos judiciais, enquanto uma vantagem maior daria mais sustentação à reação positiva.
Dólar e juros também poderiam recuar. Renato Nobile, CEO e diretor de investimentos da Buena Vista Capital, espera alta da Bolsa e queda das taxas de juros futuros em caso de vitória de Flávio. No câmbio, também vê pressão de baixa sobre o dólar, embora ressalte que o cenário internacional pode limitar esse movimento.
Alta pode ser mais moderada no primeiro pregão. Rafael Passos, sócio-fundador e analista da Ajax, estima que o Ibovespa poderia subir entre 1% e 2% na segunda-feira. Para ele, parte das expectativas já está incorporada aos preços, e os investidores passariam a acompanhar a composição dos ministérios e as propostas econômicas.
Reação inicial pode ser seguida de correção. Jason Vieira, da Lev DTVM, considera possível um movimento semelhante ao observado após o primeiro turno, com uma valorização inicialmente acentuada e posterior realização de lucros. A continuidade dos ganhos dependeria das sinalizações sobre a equipe econômica.
Se Lula vencer
Bolsa pode sofrer queda acentuada. Nobile avalia que uma reeleição de Lula contrariaria as expectativas de parte dos investidores e poderia provocar forte desvalorização das ações já na segunda-feira. Nesse cenário, também espera alta do dólar e dos juros futuros, diante das preocupações com a condução das contas públicas.
Mercado considera possibilidade de queda de 10%. Motta afirma que uma vitória de Lula poderia levar a uma reação intensa, com risco de o Ibovespa recuar 10% no primeiro pregão após a eleição. Nesse patamar, a B3 pode acionar o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações para conter movimentos bruscos. O estrategista não atribuiu probabilidade a esse cenário.
Reação pode ser mais gradual. Passos também espera pressão sobre a Bolsa, mas não prevê necessariamente uma grande queda concentrada na segunda-feira. Para ele, o mercado poderia apresentar perdas moderadas inicialmente e ajustar os preços ao longo dos meses seguintes, conforme as sinalizações econômicas.
Preocupações fiscais ganhariam peso. Vieira avalia que a continuidade do atual governo poderia aumentar a cautela dos investidores, especialmente diante das promessas feitas durante a campanha. O economista não apresentou estimativas numéricas para a reação.
Juros também podem oscilar
Títulos de longo prazo estão entre os mais sensíveis à eleição. Motta destaca os papéis públicos atrelados à inflação, especialmente aqueles com vencimentos mais distantes. Como esses títulos dependem das expectativas de juros e inflação por muitos anos, mudanças na percepção sobre as contas públicas podem provocar oscilações mais intensas em seus preços.
Direção das taxas dependerá das expectativas fiscais. Nobile espera queda dos juros futuros em caso de vitória de Flávio e alta se Lula for reeleito. Passos e Vieira não apresentaram projeções específicas para as taxas na segunda-feira.
E nos meses seguintes?
Ibovespa poderia chegar a 230 mil pontos com Flávio. Passos considera possível que o índice alcance entre 220 mil e 230 mil pontos ao longo dos meses seguintes, dependendo dos nomes escolhidos para o governo e das medidas econômicas anunciadas.
Com Lula, projeção é de 180 mil pontos. O analista estima que o Ibovespa poderia ficar próximo desse patamar em um horizonte de três a seis meses. O valor não representa uma previsão para a segunda-feira após a votação.
Primeiros anúncios podem mudar as expectativas. Os especialistas ressaltam que o resultado eleitoral não será o único fator a influenciar os mercados. A composição da equipe econômica, as propostas para as contas públicas e o cenário internacional também poderão determinar a trajetória das ações, do dólar e dos juros.
Por que mercado prefere Flávio Bolsonaro
Preferência pelo candidato da oposição reflete uma aposta em melhora de política fiscal. Como mostrou reportagem do UOL no dia seguinte ao primeiro turno, investidores esperam que, se eleito, ele adote uma política mais dura para conter gastos e o avanço da dívida, embora o candidato ainda não tenha detalhado como fará esse ajuste nem definido quem comandaria sua equipe econômica.
Componente político também explica essa preferência. Economistas e analistas ouvidos pelo UOL apontaram que a rejeição ao PT ajuda a explicar o cenário, ao lado da proximidade de Flávio com nomes de perfil liberal e de um Congresso mais favorável à direita.
A expectativa ainda precisa ser comprovada na prática. A aposta é que um governo Flávio dê mais ênfase ao controle das despesas do que o governo Lula, que buscou melhorar as contas também pelo aumento da arrecadação. O próprio governo Jair Bolsonaro, porém, terminou o mandato após flexibilizar o teto de gastos e ampliar despesas.
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