A França decretou nesta quarta-feira (21) um toque de recolher em alguns bairros de Paris pela terceira noite consecutiva, para evitar tumultos como a onda de violência do último fim de semana. A medida vale das 23h às 6h, no horário local, e abrange duas áreas da capital: a Praça da República, um dos epicentros dos confrontos de sábado, e a região comercial de Les Halles.
Autoridades da capital também proibiram aglomerações das 8h às 20h nesta quinta (22) em áreas estratégicas mais amplas, como a avenida Champs-Élysées, um dos principais pontos turísticos, e as estações ferroviárias.
Outras cidades também têm restrições, como toques de recolher noturnos até o fim da semana e vetos a manifestações, como Bordeaux, Lille, Toulouse, Lyon, Nice e Marselha.
As restrições tentam reduzir as tensões de uma nova onda de protestos marcada para sábado (24) em toda a França. A Unef, principal entidade estudantil do país, convocou novos atos, e o movimento dos Coletes Amarelos apresentou às autoridades um plano de marcha pelo centro de Paris.
Sob pressão, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou uma grande mobilização policial. O governo prometeu uma operação de segurança reforçada, após reconhecerer falhas na resposta inicial, e há previsão de que tropas do Exército sejam mobilizadas junto com contingentes policiais adicionais.
A bancada do partido da ultraesquerda França Insubmissa (LFI), liderada pelo presidenciável Jean-Luc Mélenchon, criticou o plano. "Os manifestantes não são inimigos internos. O governo francês não deve entrar em guerra contra seu próprio povo", afirmou a legenda, em comunicado.
Lecornu reuniu-se nesta quarta com as principais centrais sindicais, que denunciaram a falta de anúncios concretos em resposta às reivindicações sobre salários e serviços públicos.
O prefeito do departamento do Rhône anunciou nesta quarta-feira a proibição de uma manifestação prevista para a tarde de quinta-feira, em Lyon, organizada pela Unef.
Macron, que se reúne nesta quinta-feira (22) com autoridades de inteligência e ministros de alto escalão para discutir a crise, prometeu impedir a repetição da violência. "Aqueles que quiserem provocar desordem serão impedidos de fazê-lo", disse a jornalistas durante visita ao Qatar.
Na ocasião, Macron classificou como "estúpidos" e "inaceitáveis" os comentários de líderes estrangeiros sobre os tumultos. O presidente dos EUA, Donald Trump, culpou imigrantes e o islamismo radical pelo caos, sem apresentar provas, e afirmou que a França está sendo "conquistada, saqueada e reduzida a cinzas". Já o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, também se manifestou, ao considerar o país um refúgio do "islamismo extremista".
Macron acusou esses líderes, que enfrentam eleições legislativas nas próximas semanas, de fazer campanha às custas da França. Ele mencionou ainda a "desinformação estrangeira" que se seguiu aos acontecimentos e criticou os que "ingenuamente repetem o que aparece na inteligência artificial".
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As autoridades têm atribuído parte do caos a pequenos grupos de ultraesquerda. Os saques, por sua vez, são atribuídos a criminosos oportunistas. Segundo o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, cerca de 2.500 pessoas foram detidas após os protestos.
Do total, 917 suspeitos foram encaminhados para responder a processos e 174 estão presas, aguardando julgamento ou já condenadas.
As manifestações começaram com mobilizações de estudantes do ensino médio contra a queda da qualidade do ensino e a deterioração das escolas, mas se ampliaram e passaram a refletir a insatisfação com a alta dos preços e a piora dos serviços públicos.
O ministro da Educação, Édouard Geffray, anunciou que apresentará na segunda-feira suas "primeiras decisões" às organizações estudantis.
Uma resposta política que implique mais gastos públicos é complicada. O governo, minoritário no Parlamento, busca aprovar um importante ajuste fiscal em 2027 para sanear as contas públicas e tranquilizar os mercados.
A crise tem efeito político a seis meses da eleição presidencial, com candidatos da ultradireita e da ultraesquerda liderando nas pesquisas. Macron não pode concorrer à reeleição.
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