O Hospital do Servidor Público Estadual, em São Paulo, informa que o tempo para obter o resultado de radiografias de tórax caiu de uma hora para cinco minutos com inteligência artificial. A FIDI, fundação responsável pelo serviço de diagnóstico por imagem, utiliza a tecnologia para disponibilizar mais rapidamente o resultado ao médico.
A IA já participa de trabalhos muito diferentes na saúde. Confere pedidos de exames, organiza informações de consultas, prioriza prescrições para revisão e analisa imagens. Cada aplicação interfere em um ponto do atendimento. Avaliar o que chega ao paciente exige acompanhar a decisão seguinte, inclusive o trabalho que continua nas mãos dos profissionais de saúde.
A automação também participa da parte burocrática da medicina. Na Trevo, a pessoa envia a foto da prescrição pelo WhatsApp. O sistema identifica o exame solicitado, procura correspondências no catálogo dos laboratórios e encaminha cotação e agendamento. Já é um nível de inteligência que evita aquela conversa infinita pelo chat. A Trevo declara redução de 47% nos custos de atendimento durante o pico de procura por exames mamários do Outubro Rosa.
Há ganhos que começam longe do consultório. O Hospital Alemão Oswaldo Cruz informa redução de 90% no tempo de separação de unidades de medicamentos e aumento de até 75% na capacidade diária com a automação do almoxarifado. São indicadores da logística, que combina robô, software de gestão e organização do trabalho.
Dentro da consulta, a automação ajuda a registrar a conversa em que o profissional reúne informações sobre a saúde do paciente. A Voa Health gera documentação a partir da conversa clínica. A proposta é reduzir o trabalho de escrever, mas o profissional ainda precisa conferir se o texto preserva as informações relevantes, se omitiu algo e se acrescentou conteúdo incorreto.
Na farmácia clínica, a NoHarm.ai usa filtros e ordenação de prescrições para apoiar a revisão. A empresa declara mais de 175 milhões de prescrições avaliadas em mais de 200 unidades de saúde, sem indicar, junto desses números, o período de apuração. O volume dimensiona a operação anunciada. Para medir segurança, importa saber quais alertas levaram a uma intervenção e quantos problemas deixaram de ser identificados.
Em Feira de Santana, na Bahia, a Associação Saúde em Movimento acompanha um piloto da plataforma Cuidado em Dia, desenvolvida pela Volts Med. Segundo a associação, a ferramenta apoia profissionais da atenção primária na consulta a protocolos, na análise de informações do paciente e na avaliação da necessidade de exames. A proposta de levar esse apoio à porta de entrada do SUS permite avaliar o uso em consultas cotidianas.
Há pesquisas que permitem observar com mais precisão o desempenho de uma tarefa. Um estudo com participação do Google, Northwestern e Jacaranda Health testou IA para estimar a idade gestacional a partir de vídeos de ultrassom. Profissionais sem experiência prévia no exame movimentavam a sonda sobre o abdome em um padrão definido para gerar imagens a serem analisadas.
O Google financiou a pesquisa, e as previsões ficaram ocultas durante o estudo para não influenciar o atendimento. O objetivo era estimar o tempo de gestação, sem demonstrar redução de mortes maternas ou substituição de toda a avaliação obstétrica.
Publicado no JAMA Network Open, o estudo reuniu 2.043 participantes em Chicago e Nairobi. A análise principal incluiu 385 gestantes entre 16 e 36 semanas. A IA estimou a idade gestacional com uma diferença média de 4,2 dias em relação à referência usada pelos pesquisadores. No método clínico comparado, a diferença foi de 4,5 dias. Os resultados atenderam ao critério de precisão definido pelos pesquisadores, mas não demonstraram que a IA fosse superior ao método comparado.
A pesquisa importa porque o planejamento do parto e os cuidados necessários ao bebê dependem da idade gestacional. Em vídeo, o Google apresenta uma das entrevistadas que relata ter encaminhado uma mulher em início de trabalho de parto de uma clínica rural de Uganda a um hospital a 15 quilômetros porque não tinha ultrassom para avaliar o tempo de gravidez. Com transporte e estradas precários, a distância dificultava o atendimento.
A proposta de usar uma sonda conectada a um dispositivo móvel aproxima a coleta de locais com menos estrutura. O processamento pode ocorrer sem internet, embora os equipamentos continuem dependendo de energia e recarga. Para ampliar o cuidado, o exame precisa estar ligado a uma rede capaz de receber a gestante quando houver necessidade de atendimento especializado.
Pesquisadores ligados à Huna, ao Fleury e a instituições acadêmicas também analisaram exames de rotina. O grupo avaliou retrospectivamente hemogramas de 396.848 mulheres de 40 a 70 anos, incluindo 2.861 casos de câncer de mama. O objetivo era estratificar risco. O estudo, publicado no Journal of Health Informatics, informou AUC de 0,64. Esse indicador mede a capacidade de distinguir casos de controles: 0,5 corresponde ao acaso e 1, à discriminação perfeita.
Gabriel Alencar Coelho, CEO da Hospcom, fornecedora de tecnologias hospitalares, relaciona essa discussão à capacidade de integrar sistemas. Informações que ficam isoladas limitam o acompanhamento do paciente. Na avaliação do executivo, a entrada da IA nos hospitais aumenta a necessidade de definir como seu uso será governado. Essa definição envolve a direção assistencial e quem contrata, mantém e fornece a tecnologia.
A Resolução 2.454/2026 do Conselho Federal de Medicina estabelece deveres de avaliação de risco, auditoria e monitoramento, além de preservar o julgamento crítico do médico. O paciente tem direito à informação clara sobre o uso da IA. A norma também exige o registro do uso da IA como apoio à decisão médica no prontuário e prevê comissão nas instituições que adotam sistemas próprios de inteligência artificial.
Isso não significa atribuir automaticamente ao médico toda falha do sistema. A resolução protege contra responsabilização indevida por falha exclusivamente tecnológica quando comprovado uso diligente, crítico e ético. Apurar um dano exige examinar a conduta profissional e o funcionamento da ferramenta, além das obrigações da instituição e do fornecedor. Uma recomendação errada não permite definir o responsável sem investigar o caso.
A formação dos profissionais também precisa corresponder ao trabalho que executarão. A Scolla, centro de treinamento no Paraná, informa ter alcançado mais de 4.000 médicos em iniciativas que incluem cursos, atividades presenciais e eventos on-line.
A regularização sanitária tem outro objeto. Pela RDC 657/2022 da Anvisa, um software pode ser enquadrado como dispositivo médico conforme sua finalidade. Há regimes diferentes por classe de risco, com notificação ou registro, e exclusões como o uso exclusivamente administrativo. Um programa que organiza agendamentos e outro que apoia diagnóstico não recebem automaticamente o mesmo tratamento.
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