Quando Rafael Câmara recebeu a ligação de seu agora chefe Ayao Komatsu dizendo que ele seria o titular da Haas na Fórmula 1, sua reação foi perguntar: "Você tem certeza?" O brasileiro de 21 anos sempre ouviu que era uma questão de tempo para chegar à categoria máxima do automobilismo devido ao seu talento natural.
E foi ele que tirou qualquer dúvida que o japonês poderia ter.
Komatsu tinha visto o que o pernambucano de 21 anos podia fazer em uma rara ocasião em que uma equipe de F1 colocou três postulantes à vaga de titular lado a lado em um teste, tendo o titular, Ollie Bearman, como o benchmark.
Rafael Câmara estava no teste como um piloto indicado pela academia de jovens da Ferrari, da qual faz parte desde 2021. Ele não chegou como o favorito. Durante a coletiva de imprensa em que o brasileiro foi confirmado, Komatsu respondeu ao UOL Esporte que "provavelmente não" teria considerado Câmara se não tivesse tido a possibilidade de vê-lo testando seu carro, ou seja, somente pela temporada dele na Fórmula 2 e as informações da Ferrari: "Seria uma aposta que eu provavelmente não iria fazer."
Mas, quando ele entrou na pista, sob condições difíceis em Portimão, com muito vento, chuva, e problemas de vibrações no carro, a decisão ficou bem mais fácil.
O que realmente nos impressiona no Rafa é a forma como ele avalia as condições da pista; é preciso ter uma sensibilidade muito apurada em relação ao carro e à aderência para conseguir lidar com condições que mudam constantemente. As condições mudavam a cada minuto, a cada volta, praticamente! Não havia duas voltas iguais. Isso foi impressionante.
Ele se concentrou no que era necessário para ser ele mesmo e alcançar seu melhor desempenho -- entendendo o processo para chegar lá e, na sequência, executando-o com maestria. Além da velocidade, o que mais chama a atenção é o potencial: as possibilidades de crescermos juntos, de cultivarmos esse talento e de fazermos com que todo o seu potencial floresça.Ayao Komatsu, chefe da Haas
'Não é todo dia que você faz um teste para definir sua carreira'
Mais impressionante ainda foi o fato de Câmara, ao contrário dos demais pilotos que participaram do teste, estava pilotando uma Haas pela primeira vez. Perguntado pelo UOL Esporte sobre como lidou com um teste tão decisivo e em que chegou em desvantagem, o piloto de 21 anos revelou a dificuldade de não se esquivar da importância do momento e, ao mesmo tempo, não deixar que isso o abalasse.
Não é todo dia que você vai fazer um treino para decidir a sua carreira, praticamente. Então, foram dois dias que eu estava tenso.
Claro que é normal você ficar mais receoso do que pode ser, você ficar pensando mais de como performar da melhor maneira. Como você ser você, sem se segurar mais, sem ficar um pouco mais preso, porque você sabe a importância que tem esse treino. Então, eu acho que eu consegui ser quem eu sou, só aproveitar o momento realmente.
E no final, aquilo que eu sempre falo, que é focar realmente nas coisas que eu consigo controlar. Então, toda vez que eu tava no carro, eu sempre, independente se tinha alguma coisa, se tinha algum problema, se tava tudo bem, se tava diferente, sempre, em cada saída, eu tentava maximizar o que eu conseguia. E acho que eu, com o teste, eu fiquei muito contente, não só pelo resultado, mas pelo trabalho que eu consegui fazer numa situação tão difícil assim, né? E ser eu, fazer o que eu sei fazer, e deu tudo certo.Rafael Câmara
O teste foi no final de agosto. Komatsu estava convencido, mas ainda havia um último obstáculo: fazer a parceira Toyota entender a situação. A Haas tem duas parcerias técnicas: uma de longa data com a Ferrari e outra com os japoneses, que inclusive permitiu o tal teste, em que um dos pilotos foi, justamente indicado pela marca.
Contratar Câmara significava ter dois pilotos ligados à Ferrari ao mesmo tempo, algo que a Haas nunca fez. E isso está acontecendo justamente em um momento de expansão da parceria com a Toyota.
Komatsu, então, foi pessoalmente ao Japão falar com o chefe da Toyota e explicar sua decisão.
Eu sabia que Akio-san tinha um grande interesse em colocar um de seus pilotos em um assento de titular no ano que vem. Por isso, fui encontrá-lo pessoalmente em Tóquio antes de assinarmos qualquer coisa — e antes mesmo de ele me fazer qualquer comentário —, pois eu não queria que houvesse nenhum mal-entendido.
Eu disse a ele: 'Olha, entendo o seu objetivo, mas esse piloto -- seja quem for que você escolher -- precisa ser, de fato, o mais rápido'.Komatsu
E esse piloto era Rafael Câmara. O martelo foi batido há cerca de um mês e só ficaram os detalhes para serem acertados nas últimas semanas antes do anúncio desta quinta-feira (15).
A pergunta que fica agora é se Câmara vai participar de algum treino livre, pela Haas ou pela Ferrari, até o final do ano. As melhores opções são nos GPs dos EUA, México e, especialmente, no GP do Brasil.
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.
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