No fim de "O Show de Truman" (1998), o personagem de Jim Carrey descobre que a vida inteira dele era um programa de televisão. A cidade era um cenário, os amigos eram atores, e milhões de pessoas assistiam, do sofá de casa, todos os passos de um homem que não sabia estar sendo assistido.
A cena final é a da libertação: Truman caminha até a parede pintada de céu, encontra a saída e some.
Décadas depois, o filme virou quase um documentário, mas com uma diferença crucial: os influenciadores de hoje não são Truman. Ninguém os enganou nem montou o cenário à revelia deles. Eles mesmos pintaram o céu, instalaram as câmeras e abriram as portas de suas vidas.
Passado o primeiro turno das eleições, uma parte considerável da plateia resolveu bater na parede do estúdio de seus influenciadores preferidos e perguntar: "e aí, vai votar em quem?". A reação se dividiu em três:- Alguns se manifestaram e falaram abertamente;- Outros se posicionaram sem adotar posição alguma, com aquele texto morno, cheio de dedos, que só fez crescer a ira de quem cobrava;- E há os que simplesmente ignoraram e seguiram transmitindo, imperturbáveis, a mesma rotina de aparente futilidade.Veja, o voto é secreto no Brasil, e ninguém é obrigado a declará-lo. Porém temos uma cultura onde gente, principalmente do mundo artístico, sempre falou abertamente sobre suas posições políticas. Seja nas Diretas Já, nas campanhas de TV com globais cantando jingle ou com sertanejos realizando showmício pelos cafundós deste país.Os influenciadores, e aí cada um julga essa frase da maneira que quiser, são os artistas da nova geração. Mas com uma diferença gritante: um ator ou cantora não necessariamente precisa expor sua vida privada. Com os criadores de conteúdo é o oposto. A partir do momento em que alguém escolhe ser figura pública e vive de expor a própria vida na internet, posicionar-se deixa de ser um favor e passa a ser parte do pacote.
Há diversos fatores que explicam por que é delicado abrir o seu voto para milhares de seguidores. E todos giram em torno de uma palavra: dinheiro. Primeiro existe o medo de perder seguidores, que é uma moeda social importante no mercado de influência na hora de fechar um trabalho.A segunda razão é simplesmente contratual: para se blindarem, as marcas colocam cláusulas de conduta, as chamadas "cláusulas de moralidade", que preveem a rescisão em caso de manifestação política por parte do contratado. Muitas vezes rende até multa.Por fim há o item mais grave de todos: o medo real. São várias as personalidades, de internet ou não, que dizem sofrer ameaças e perseguições desde que assumiram seus votos em público. Felipe Neto, que foi muito atuante nas eleições presidenciais de 2022, já admitiu que precisou tirar a mãe do Brasil por questões de segurança.Há uma razão de fundo para tanta evasiva, e ela tem a ver com a natureza do negócio. O sociólogo Erving Goffman já descreveu a vida social como um teatro dividido entre o 'palco', onde nos apresentamos, e os 'bastidores', onde descansamos da personagem.
O influenciador fez algo inédito: vendeu o palco como se fosse bastidor. Convenceu a plateia de que mostra os fundos da casa, quando mostra a fachada mais caprichada. A autenticidade é o seu principal produto e é por isso que o silêncio político a contradiz.
Lembra de "Nosedive", o episódio de "Black Mirror" em que todos vivem reféns das notas que dão uns aos outros, sorrindo de pavor de perder pontos? É o retrato do influenciador ou celebridade que silencia não por princípio, mas por aritmética: cada opinião é um risco à média.
A sensação que fica é a de que, no mundo da influência, todo mundo quer ser vitrine, mas ninguém quer ser vidraça. A internet não é terra de ninguém, mas, a partir do momento em que você sobe algo pessoal e público ali, existe um tribunal do outro lado da tela: muitas vezes cruel, blindado pelo anonimato e pela sensação de que nada acontece. Faz parte do jogo, infelizmente.
O influenciador precisa entender que não é o novo apresentador do Shoptime ou Polishop. O próprio nome diz: influência pressupõe um valor, uma visão, um talento, algo que dá a alguém poder de mover os outros. Se tudo o que ele move são hábitos de consumo, então não é influência: é vitrine com voz.
Quando o criador abre a casa e mostra a reforma, a arquitetura que escolheu, a decoração, os objetos, aquilo diz algo sobre o mundo dele, sobre quem ele é. É por isso que assistimos: por curiosidade sobre a vida alheia, não por vontade de visitar um showroom. E o voto, goste-se ou não, é a parte mais reveladora desse mundo interior que ele faz questão de vender.O estudo "Influence Marketing Scopen", da consultoria espanhola Scopen, elencou os influenciadores mais admirados pelo mercado publicitário brasileiro. No ranking do top 7, há nomes que se manifestaram politicamente nessas eleições, como Mari Kruger, Bianca Andrade, Camila Fremder e Alvxaro.
O resto da lista inclui criadores que até este momento (15 de outubro) adotaram o silêncio, como Lucas Rangel, Lara Santana e Silvia Braz. A comediante Luana Zucoloto, que subiu um vídeo na linha isentona e foi chapiscada, é o segundo nome mais admirado.
Quando um seguidor cobra o criador de conteúdo a abrir em quem vota, ele na verdade quer a moeda de troca mais importante das redes: a transparência. Um vídeo em primeira pessoa, falando para a câmera, afirmando que não pode se manifestar por uma cláusula contratual, é uma frase honesta. Um texto afirmando que prefere não se expor por questões de segurança da família, idem.
Pode gerenciar a crise de imagem? Talvez. Pode ainda render mais hate? Talvez também. O que não se sustenta é o silêncio mudo, sem explicação, que terceiriza para a audiência o trabalho de adivinhar se aquilo é covardia, conveniência ou cautela. Pior é a nota vazia calculada para não desagradar lado algum — e que, justamente por isso, desagrada a todos.
E há uma última camada, que deveria tirar o sono de quem vive disso: toda essa casa de vidro foi erguida num terreno que pertence a outra pessoa. As plataformas que sustentam a renda do influenciador são controladas por um punhado de bilionários (como Elon Musk), que hasteiam a bandeira da "liberdade de expressão" com uma mão e, com a outra, mudam as regras do jogo ao sabor do próprio humor.
Se uma dessas empresas decidir deixar o Brasil amanhã, da noite para o dia, como já se ameaçou fazer, qual seria o impacto na vida desses criadores? Talvez seja essa a pergunta que o influenciador silencioso mais evita: não a dos seguidores, mas a de Truman diante da parede pintada.
Ele construiu uma vida inteira dentro de um estúdio que não é seu, encenando autenticidade para uma plateia que teme. Não declarar voto é um direito, mas fingir que não se tem posição alguma (ou escondê-la atrás de uma nota vazia) é tratar com desdém quem justamente lhe deu tempo, atenção e até dinheiro.
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