Uma operação da Polícia Federal contra lavagem de dinheiro em postos de combustíveis prendeu nesta quinta-feira (15) o deputado estadual eleito e ex-prefeito de Belford Roxo (RJ) Marcio Canella (União Brasil-RJ) e o delegado Marcus Amim, que já ocupou os cargos de secretário da Polícia Civil do Rio e de presidente do Detran do estado.
Canella foi o segundo deputado estadual mais votado do Rio, com 197 mil votos. Seu nome chegou a ser indicado para o Senado por Flávio Bolsonaro (PL), candidato a presidente da República.
A defesa de Canella afirmou que não teve acesso à decisão. Segundo os defensores, o deputado disse que "confia em Deus, na Justiça e que tem certeza que tudo será esclarecido".
O advogado Thiago Minagé, que representa Amim, disse que aguarda acesso "à decisão para prestar os devidos esclarecimentos".
Segundo as investigações, Canella é suspeito de ser beneficiário recorrente de valores cuja origem não está esclarecida, como aproximadamente R$ 2,5 milhões em créditos pela sua empresa de empreendimentos e por repasses em espécie de quase R$ 140 mil.
A Polícia Federal descreve ele como "patrono político e articulador de alto escalão" de uma organização criminosa que, segundo a investigação, movimentou R$ 7,6 bilhões com uma rede de postos de combustíveis no Rio. Ele foi preso em operação nesta quinta-feira (15).
Na representação ao STF (Supremo Tribunal Federal), os investigadores dizem que ele é o "elo entre o poder público, a rede econômica e as franjas armadas" do grupo. O valor é uma estimativa do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) para o período de 11 de maio de 2020 a 12 de março de 2026 e envolve 835 pessoas e empresas.
Amim é apontado como o "operador institucional e garantidor de blindagem policial ao grupo". Ele é considerado sócio oculto de postos de gasolina e as investigações apontam que recebeu R$ 1,8 milhão em um contrato de consultoria sob suspeita.
Pablo Russo, que é um policial civil, é descrito pelas apurações como o principal operador de uma rede que controla mais de 40 postos formalmente registrados em nome da mulher dele e de outra sócia.
A ação foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), e é a oitava fase da Operação Unha e Carne, que já havia prendido Canella e Amim antes.
Também foram presos na operação os policiais civis Cristiano Gaspar Fernandes, Giovanne Gaspar Fernandes, José Carlos Alves de Souza Junior e Pablo Juquiá Félix Ferreira, conhecido como Pablo Russo.
O advogado Ubiratan Guedes, que faz as defesas dos irmãos Gaspar Fernandes, disse que ainda não teve acesso aos autos e que seus clientes estão surpresos com a prisão. "A única coisa que temos conhecimento é da prisão. Mais nada", disse. A reportagem busca a defesa dos demais presos.
A Polícia Civil do RJ afirmou que "não compactua com qualquer desvio de conduta e adota, de forma rigorosa, as medidas administrativas e disciplinares cabíveis diante de indícios de irregularidades".
A corporação ainda disse que atua de forma integrada com outras forças de segurança e a Corregedoria-geral acompanha a operação.
"Além do crime de organização criminosa armada, os investigados responderão, na medida de suas responsabilidades, por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel, além de outros que poderão surgir no decorrer das investigações", disse a PF, em nota.
Segundo a PF, a operação desta quinta foi o tema da reunião da cúpula do órgão com Moraes, no último dia 6, fora de agendas oficiais e que causou desgastes internos no Supremo.
A operação teve 16 endereços de busca e apreensão domiciliar, em sete municípios do Rio, ligados a 12 pessoas. Em um dos endereços, foram apreendidos R$ 40 mil em uma adega.
Oito endereços ficam em Niterói, em bairros como Icaraí, Camboinhas, Piratininga e Charitas. José Carlos Alves de Souza Júnior tem quatro endereços, em Niterói, Petrópolis e Armação dos Búzios. Pablo Jukiá Felix Ferreira tem um em Niterói e outro em Angra dos Reis.
Na capital, as buscas ocorrem na Barra da Tijuca, na zona oeste, onde ficam o deputado estadual eleito Márcio Canella e o escrivão da PF (Polícia Federal) Fábio Henrique Ferreira dos Santos, e em Ramos e Cachambi, na zona norte. Os outros endereços estão no centro de Nova Iguaçu e em São Gonçalo.
A decisão também autorizou a busca pessoal, com apreensão de celulares, computadores, documentos, armas, dinheiro a partir de R$ 5.000 e veículos de valor igual ou superior a R$ 70 mil.
Na casa de Canella, a PF apreendeu armas de fogo e munições, o que, segundo ela, "converge a vertente de coerção armada da organização criminosa". Também apreendeu relógios Rolex, Hublot, Bvlgari, Panerai e Breitling, dois carros de luxo e duas motos de grife. Na decisão, Moraes afirma que o armamento, "embora isoladamente não seja determinante, reforça o contexto de especial periculosidade concreta".
Manuscritos apreendidos na casa de José Carlos Alves de Souza Júnior, apontado como gestor financeiro do grupo, atribuem a Canella repasses recorrentes de um posto de gasolina: R$ 51 mil, R$ 31 mil e R$ 57 mil, este último sob o codinome "amigo". Em outro trecho, a PF fala em "repasses recorrentes em espécie, sem lastro contratual, superiores a R$ 139 mil" oriundos de outros dois postos. Segundo a representação, um cunhado de Canella está no quadro societário dos estabelecimentos.
A quebra de sigilo bancário mostrou, segundo a PF, que Canella recebeu cerca de R$ 2,59 milhões entre maio de 2025 e abril de 2026, dos quais R$ 1,4 milhão vieram de uma empresa da qual ele é sócio. Os bancos não conseguiram identificar a origem primária do dinheiro. Parte dele foi repassada a familiares e a integrantes do círculo político de Canella, segundo a PF.
A PF ressalva que Canella, "ainda que não identificado como operador direto das movimentações financeiras do grupo, ocupa posição de beneficiário recorrente de recursos originados no núcleo econômico investigado".
Canella e Amim haviam sido presos, também em operação autorizada por Moraes, em 7 de julho. Na ocasião, Canella foi preso em flagrante após a PF ter encontrado um fuzil calibre .556 dentro de seu veículo.
Na ocasião, Canella negou ser o dono da arma. Ao ser solto, em 10 de julho, os advogados Pierpaolo Cruz Bottini, Sheila Lustosa e Davi Lefer disseram que a prisão não se sustentava, pois a arma era legalizada e registrada em nome do policial militar que fazia a segurança do então pré-candidato ao Senado. A documentação foi entregue ao Supremo.
Amim foi nomeado em outubro de 2023 como chefe de Polícia Civil após pressão de deputados estaduais sobre o ex-governador Cláudio Castro (PL). Segundo a PF, Canella "foi o responsável direto por capitanear a indicação".
Ele substituiu o delegado José Renato Torres, que estava havia um mês no cargo e resistiu a indicações feitas pelos membros da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).
Ele foi exonerado em setembro de 2024, dando lugar ao delegado Felipe Curi. Amim ganhou logo em seguida o cargo de coordenador de segurança na Alerj, à época sob comando de Rodrigo Bacellar (PL), atualmente preso.
Amim também tinha relações políticas com Canella. O ex-prefeito, quando exercia mandato de deputado estadual, o condecorou com a medalha Tiradentes, principal comenda da Alerj.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Recurso exclusivo para assinantes
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.