O argentino Alejandro Mancuso revelou, em diversos áudios obtidos pela coluna, que negociou dezenas de licenças pelo valor que chamou de padrão: 20 mil dólares, o equivalente a aproximadamente R$ 100 mil. Em algumas mensagens, afirmou que teria mais de 40 "clientes" só no Brasil. Ainda não é possível dizer quanto dinheiro o ex-volante levantou com o esquema, mas a conta pode chegar a vários milhões de reais.
Durante a investigação, um detalhe chamou a atenção: os depósitos, em sua esmagadora maioria à vista, eram feitos em uma conta em Miami, nos Estados Unidos.
A opção Pix é mais recente. Para isso, ele contou com a ajuda de Júnior Gomes, técnico rodado na terceira divisão do futebol carioca, com o apelido de "Renato Gaúcho da Baixada" devido ao estilo boleiro e à experiência nas equipes da Baixada Fluminense. Gomes emprestou a conta para que Mancuso recebesse o dinheiro das licenças. Somente em setembro deste ano, ele recebeu pelo menos duas transferências de 50 mil reais.
Para uma fonte da coluna, Gomes contou que é parceiro de Mancuso há anos e que o argentino "é cara sério e de palavra".
"As licenças são o Mancuso que articula. Eu só quebrei um galho. Como moro no Brasil, facilito para ele devido aos impostos, e meu banco fazia essa operação", explicou.
O golpe dos diplomas
Após quase dois anos de investigação, a coluna revelou um esquema de venda de licenças falsas de treinador da ATFA, a tradicional escola de técnicos da Argentina, a ex-jogadores consagrados. O pivô é o argentino Alejandro Mancuso, ex-volante de Palmeiras e Flamengo e auxiliar de Diego Maradona na seleção argentina na Copa de 2010.
Em dezenas de áudios e mensagens obtidos pela reportagem, Mancuso oferecia o que chamava de "trâmite urgente": um caminho paralelo para obter os diplomas sem cumprir a formação regular. Ele prometia enviar pelo correio, em até dez dias, as licenças PRO, A, B e C. O esquema tinha até um "flyer" de divulgação.
Thiago Silva, Roberto Carlos, Felipe Melo, Alex de Souza, Petkovic, Lugano, Luiz Gustavo e Paulinho, entre outros, confirmaram ter negociado com Mancuso ou recebido os documentos. A maioria diz nunca tê-los usado, e Felipe Melo conseguiu o dinheiro de volta.
A ATFA afirma que toda a documentação é falsa e que Mancuso não tem vínculo com a entidade. A análise do UOL encontrou problemas como QR codes que não levam a páginas válidas, licenças de 2023 assinadas por um dirigente afastado desde 2020 e erros de grafia. Em 2025, a Justiça Federal argentina chegou a investigar a emissão irregular de licenças a ex-jogadores estrangeiros, mas arquivou o caso. Mancuso nega ter vendido os diplomas.
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