POR ANTONIO CARLOS SALLES*
Num dos momentos mais dramáticos do filme A Odisseia, Ulisses (Matt Demon) é obrigado a tomar uma decisão de vida ou morte.
Antes de cruzar o Estreito de Messina, onde um redemoinho assombroso, sereias voluptuosas mas igualmente mortíferas e um monstro de várias cabeças o aguardam, juntamente com a esfalfada tripulação.
Ser derrotado não era a opção do líder. Chegar ao mar aberto, à duras penas, sim.
A travessia rumo à Ítaca coleciona dissabores, penúria e vidas. O cenário é de fim de ciclo para todos, numa dramaticidade que arrepia, enerva e angustia quem a assiste. Mas eles conseguem.
Remam e lutam: bravamente, destemidamente, valentemente.
Este mar revolto, perigoso e traiçoeiro está à espreita do Clube do Remo.
Nas rodadas finais do campeonato brasileiro, caberá aos seus leões famintos domar as feras das adversidades.
E se determinado o elenco estiver à permanência na Série A, a remada forte precisa começar na próxima rodada do Brasileirão contra o Grêmio, em Belém.
Um comandante à Ulisses o time tem. Chama-se Marcelo Rangel.
Goleiro excepcional cujas defesas lembram os artistas do Cirque du Soleil, performance que nos momentos mais críticos une malabarismos diversos com a pirotecnia circense para evitar gols quase feitos.
Tornou-se unanimidade, incensado pelos grandes goleiros brasileiros.
Jogasse ele nas cercanias da CBF ou tomasse cerveja ruim junto com Ancelotti e Ronaldo, seu nome já frequentaria as listas para futuras convocações.
Há outros ótimos nomes no elenco que são fortes remadores em águas turvas e grandes ondas.
Eles podem fazer do Mangueirão uma enorme e assustadora Pororoca em cada um dos jogos nessa reta final para escapar ao rebaixamento.
Exemplos de superação e fator campo não faltam para inspirar o CR.
Como fez o Vitória na Copa do Brasil ao eliminar o Flamengo no Barradão. Impôs-se do começo ao fim, jogou como argentinos na Libertadores e avançou na competição.
Assim como o Vasco, remontado, na goleada impiedosa no Coritiba (5/0), antes da data FIFA.
E tem a inesquecível vitória do Corinthians contra o Chelsea no segundo título mundial do Timão. O time inglês campeão da Liga dos Campeões era infinitamente superior na técnica. Na raça, na disputa viril e na habilidade, veio a vitória corintiana.
São exemplos de arrancadas históricas dentro de campo, até para confirmar que, se a tática não funciona, que seja no improviso ou ainda, no resgate ao apoio do "Sobrenatural de Almeida", de Nelson Rodrigues.
Depois de mais de 30 anos de ausência da Seria A, não pode haver dúvida alguma sobre a arrancada final.
Excluir a palavra "talvez" do dicionário remista é obrigação da comissão técnica, dirigentes e atletas.
Na história do clube, remar é um ato de amor e celebração. É desviar das ondas imprevistas; é manter a gana para sobre elas avançar.
E assim tem sido desde as águas poluídas do Tâmisa pelos braços destemidos de azulinos históricos, como Victor e Edgar Engelhard, quando estudavam em Londres.
Por que agora seria diferente?
*Antonio Carlos Salles é jornalista.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
Deixe seu comentário
O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.