O cancelamento do debate da TV Globo na noite de ontem deu sequência ao drama do eleitor brasileiro que segue desconhecendo a opinião dos candidatos a respeito do trabalho de Carlo Ancelotti. Havia uma expectativa de que o tema fosse finalmente tratado em rede nacional, mas o capítulo de "Quem ama cuida" acabou dominando a programação global. Esta coluna trabalha com ficção e, diante de tamanho desprezo e omissão jornalística, decidiu analisar e oferecer em devaneios respostas imaginárias para essa questão tão relevante para nosso país.
O presidente Lula, candidato à reeleição pelo PT, acredita que Ancelotti não passa de uma aposta da CBF. E se é aposta, ele está proibido. Ancelotti está fora! Lula já assinou uma MP tratando da questão em meio a um delicado período eleitoral. O renomado técnico italiano busca reverter esse cenário alegando que tem um contrato devidamente regularizado até a Copa do Mundo de 2030. Nos bastidores do governo ele já é chamado de "Cancelotti".
Lula defende que a seleção volte a ser comandada por um técnico brasileiro já que isso não caracterizaria aposta pelo simples fato de não ter nenhuma chance de dar certo. O candidato apenas faz uma ressalva: ele apoia técnico brasileiro desde que não seja convocado o atacante Vitor Roque, conhecido como "Tigrinho". Quem aposta em Ancelotti tem até 23h59 de 5 de outubro para resgatar seus saldos. Já quem pretende seguir apostando no italiano vai provavelmente fazer sua fezinha no mercado clandestino. O próximo desafio é o grande jogo entre Índia e Brasil que acontece neste sábado em Calcutá.
A CBF contesta todo esse cenário ressaltando que o contrato assinado com o italiano envolve quantias gigantescas e uma decisão radical como essa do governo além de eleitoreira gera uma insegurança jurídica sem precedentes para o país. Lula não se comoveu reafirmando sua decisão e alegando que a questão é principalmente de saúde pública. A campanha do petista enfatiza que milhares de brasileiros que acompanharam os jogos da seleção durante a Copa do Mundo e em especial os amistosos recentes na Austrália manifestaram ansiedade, tristeza e revolta, além da experiência de ouvir vozes, dor de barriga e desejos de torcer pela Argentina, segundo dados do Ministério da Saúde.
Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo PL, vai na contramão de Lula. Flávio exalta o trabalho do atual técnico da seleção e deseja que seja produzido um filme celebrando a vida de Carlo Ancelotti. Uma película com atores internacionais em um roteiro envolvente recheado de conquistas e intrigas. O filme será uma espécie de nova versão de "O Incrível Exército de Brancaleone" com Ancelotti comandando sua tropa desvairada nas mais famigeradas confusões que só uma Data FIFA pode oferecer.
Vai ter Ancelotti de terno elegante e sapatos impecáveis nas areias de Copacabana, trajado de sunga branca e mascando chiclete na sede da CBF, sendo muito bem recepcionado em evento por Emerson Leão e Oswaldo de Oliveira, experimentando coxinha, brigadeiro, pastel, açaí e guaraná. Vai ter Carleto tocando o terror no carnaval em Salvador e fumando charuto em ambiente fechado. Tudo isso e muito mais. No entanto, o candidato Flávio acredita que terá que se esforçar para conseguir bancar o filme, já que sua fonte anterior de financiamentos de projetos cinematográficos simplesmente deixou de responder suas mensagens no celular.
Os demais presidenciáveis também se manifestaram sobre o tema. Augusto Cury, candidato pelo Avante, quer presentear o italiano com alguns de seus livros de autoajuda, enquanto Ronaldo Caiado, do PSD, acredita que o atual trabalho de Ancelotti vai nos levar ao título mundial em 2030. A má notícia para Ancelotti é que Caiado também acredita que vai vencer as eleições em outubro. Romeu Zema, candidato pelo Novo, implorou ao italiano que jamais desista mesmo que todos peçam isso. "Eu acho que você sair de campo antes do juiz apitar é meio esquisito.", afirmou Zema, não se sabendo se estava referindo a Ancelotti ou a si próprio. Já Renan Santos, do Missão, defendeu a saída do atual técnico da seleção. Membros de sua campanha sugeriram a substituição por alguma profissional do leste europeu.
Rômulo Mendonça escreve às sextas-feiras, nesta coluna, um texto de ficção baseado em notícias publicadas no UOL
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
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