Já reparou que, ao abrir uma rede social, basta deslizar o dedo uma vez para cima para aparecer uma pessoa, que muitas vezes você nem conhece, falando diretamente contigo?
A fórmula é quase sempre a mesma: microfonezinho na mão, cenário caseiro e uma confiança daquelas. O assunto varia: vai dos mitos da creatina aos possíveis efeitos econômicos da disputa entre China e Estados Unidos.Daí você desliza o dedo de novo e surge alguém que você conhece de verdade. Também falando para a tela, a sua dermatologista, microfone de lapela na mão e uma caneca na mesa, comenta sobre os produtos de skincare coreanos. Mais um deslize, e quem surge é o gerente do seu banco dando dicas de investimento.
Gravar-se falando sozinho para transmitir autoridade em frente a um microfone não é novidade. Até pouco tempo atrás, viralizaram os podcasts solo, onde as pessoas pretendiam participar de um programa de entrevistas. As falas de efeito e didáticas eram cronometradas para caber nos 90 segundos de um corte para as redes, o grande objetivo do formato.
Mas o mesmo formato do podcast solo começou a soar constrangedor a partir do momento que foi revelado, e evoluiu para o microfonezinho que pode ser segurado apenas com o polegar e o indicador. O curioso é que este aparelho chama lavalier, vulgo microfone de lapela, e foi criado justamente para ser preso na roupa e liberar as mãos.Ao segurá-lo, ou prendê-lo em objetos como bilhete de metrô ou uma colher de pau, simula-se um repórter ou palestrante. É a forma de autoridade sem a substância dela, um gesto de quem tem algo importante a dizer, encenado por quem talvez não tenha. É um incrível fenômeno de quem se vende como especialista de tudo, mas no fundo nunca fez nada.
Nos últimos anos, as plataformas migraram de vez para o vídeo e passaram a recompensar um formato específico: o conteúdo educativo, denso, explicativo, entregue em pílulas. A dança e o meme, que eram curtinhos, deram lugar ao explicador, que tem maior probabilidade de reter a audiência ali dentro. Por isso eles aparecem tanto como sugestões de conteúdo dentro do seu feed e nas abas 'Explorar' e 'Para Você'.
A revista britânica "Dazed" batizou o fenômeno de "epidemia de explicadores": uma legião de gente que descobriu que dar aula sobre qualquer coisa, de geopolítica a intestino, rende mais alcance do que qualquer outra coisa. Para esse tipo de criador de conteúdo, criou-se o termo "thinkfluencer", ou "influenciador do pensar", em tradução livre.
O problema é que profundidade não combina com pressa. Como resumiu a jornalista Shuang Bright à Dazed, "não dá para ser profundo depressa". O que sobra, na maioria das vezes, é a fachada da educação: o formato do conhecimento sem o conhecimento em si. Aprendeu-se a imitar a aparência de quem sabe (o tom pausado, o olhar firme, o microfone na mão) sem necessariamente passar pelo trabalho lento de saber, pesquisar e aprofundar.
O microfonezinho virou o soapbox moderno, aquele caixote improvisado que no século 19 servia para as pessoas subirem em praças públicas para discursar para quem quisesse ouvir. A diferença é que o caixote de hoje cabe na palma da mão, e a praça tem bilhões de pessoas passando o dia inteiro.
A pergunta que fica é: por que, de repente, todo mundo resolveu subir no caixote ao mesmo tempo? Em 1979, muito antes do primeiro smartphone, o historiador americano Christopher Lasch publicou "A Cultura do Narcisismo" (Fósforo Editora).Num trecho que hoje soa quase profético, Lasch descreveu como os meios de comunicação de massa permitiriam que as pessoas "falassem para milhões e, ainda assim, estivessem falando apenas consigo mesmas". Troque "meios de comunicação de massa" por "feed" e a frase poderia ter sido escrita ontem. No universo de opinadores e de microfonezinhos, a pessoa fala para uma multidão invisível e, no fundo, conversa apenas com o próprio reflexo.Mas o momento mais interessante desse livro de Lasch é quando ele diz que, numa cultura narcísica, o sucesso deixa de ser medido pela realização concreta e passa a ser medido pela imagem do sucesso. Ou seja: importa menos ter feito algo e mais parecer alguém que fez. É uma definição que cabe como uma luva para os influenciadores de bets que vendiam uma vida de luxo.
A problemática da "epidemia de opinadores" é que, quando todo mundo resolve falar sobre tudo, a probabilidade do discurso esvaziar é enorme. Pois o algoritmo, a partir do momento que observar que você interagiu com certo tipo de discurso, irá apenas te entregar mais gente falando sobre o mesmo tema, mas em diferentes cenários.Com o microfonezinho, dialogamos cada vez menos, mas transmitimos cada vez mais. Trocamos a conversa (que tem atrito, escuta e réplica) pelo monólogo, que não tem nenhum dos três. Ninguém interrompe o vídeo para discordar, o explicador nunca é contestado no meio da frase. É a opinião entregue num ambiente esterilizado, sem o risco de encontrar outra opinião.Nos tempos de soapbox, se alguém discordasse de uma fala, pedia-se a vez e subia-se no caixote em seguida para debater. O confronto de ideias existia, hoje não. Reparou que essas talvez sejam as eleições onde os candidatos fogem cada vez mais de debates e priorizam o conforto de apenas subir vídeos em suas plataformas para suas bases, torcendo para que esses conteúdos furem suas bolhas?
A própria Dazed termina sua reportagem com uma sugestão modesta e quase subversiva para os tempos: em vez de correr para explicar, talvez valha a pena, de vez em quando, simplesmente ser aluno. Ouvir e não ter opinião sobre tudo, deixando que alguém que de fato estudou o assunto ocupe o caixote por um momento.
Quando todo mundo tem uma opinião sobre tudo e vira especialista de tudo, quem sobra para ouvir? Se a praça inteira está falando ao mesmo tempo, cada um com seu microfone na mão, para quem estamos falando?
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
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