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UOL há 34 d • Dom, 27 Set 2026 05:30:00 -0300

Veto a bet mira eleitor indeciso, mas dívida da classe média é diferente

Veto a bet mira eleitor indeciso, mas dívida da classe média é diferente

A história ensina que, se há uma coisa que não é proibida no Brasil, é proibir. Vale lembrar um debate transmitido em rede nacional 26 anos atrás. Então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf foi questionado no programa "Roda Viva", da TV Cultura, se tinha "prazer de proibir as coisas" por ter determinado a obrigatoriedade do uso de cinto de segurança e o veto a cigarros em lugares fechados. "Deixa as pessoas fumarem", disse um entrevistador. "Tenho que andar com aquilo (cinto de segurança) me amarrando?", perguntou outro.

As decisões de Maluf podem ter desagradado alguns, mas tinham respaldo da maioria. Na época, segundo o Datafolha, 75% dos paulistanos apoiavam a restrição ao cigarro e 90%, a imposição do cinto de segurança. Maluf terminou o mandato aprovado por 47% dos paulistanos, um recorde de então, e elegeu seu sucessor, Celso Pitta.

Cientistas políticos avaliam que, a exemplo de Maluf, seria ingenuidade imaginar que um político com a experiência de Lula, em busca do quarto mandato na Presidência da República, compraria briga com o lobby das empresas de apostas à revelia do cálculo eleitoral. Na véspera do anúncio da proibição das bets, feito na noite desta sexta-feira (25), levantamento do Instituto Atlas/Intel mostrou que mais de 80% dos brasileiros apoiam o fim das bets no país.

Autor do livro "A polarização no divã" (Mórula Editorial), lançado em setembro de 2026, o psicólogo e jornalista Eduardo Sincofsky diz acreditar que a proibição das bets representa uma retomada de comando da narrativa da disputa eleitoral para Lula. Ele aponta que o eleitor indeciso pode avaliar a decisão do presidente como corajosa e importante, o que gera afeto positivo. Por outro lado, o discurso feito por Lula ao anunciar a medida não atinge alguns dos grupos mais preocupados com o endividamento.

"[A proibição] É condição necessária para ganhar voto, mas não o suficiente. Lula não percebeu ainda todo o proveito que poderia tirar da situação", pondera o pesquisador.

Cansaço da polarização

Em seu livro, Sincofsky, que trabalha há mais de 30 anos com pesquisas qualitativas políticas, afirma ter descoberto um Brasil exausto da polarização afetiva, um "fenômeno no qual a discordância evolui para uma forte rejeição, e o adversário se torna inimigo". Cansado da polarização e órfão de candidaturas que representem ou engajem afetos, o eleitor de centro, nem bolsonarista nem lulista, associa a política a sentimentos como desânimo e indiferença.

E o que isso tem a ver com a proibição das bets? Tudo.

Essa parcela do eleitorado é diversa, inclui potenciais eleitores tanto de Lula quanto de Flávio Bolsonaro. Mas a maioria está indecisa, mais propensa à abstenção e ao distanciamento da urna. Por aversão ao conflito, segundo a pesquisa, o eleitor de centro tem se afastado das pautas polarizantes, como costumes e corrupção. Os eleitores entrevistados pelo pesquisador também demonstram uma mudança de comportamento: o envolvimento dos candidatos em escândalos importa menos na decisão do voto. Eles entendem que são todos iguais na corrupção.

O que move o afeto dos brasileiros nestas eleições, portanto, é o dia a dia: endividamento e segurança pública.

Segundo Sincofsky, as emoções negativas manifestadas por eleitores endividados por causa das apostas online desembocam em desespero e pedido de ajuda às autoridades, o que pode converter a medida radical em votos.

Nova classe social

"Por que este endividamento?", disse Lula em evento oficial no início da noite de sexta.

"Nem sempre as pessoas ganham o que precisam, nem sempre o salário é suficiente, pobres que estão jogando para tentar comprar o pão do dia seguinte."

As pesquisas qualitativas mais recentes, conduzidas por Sincofsky, atestam que o problema das bets é apenas a ponta do iceberg. O endividamento das famílias é o desafio mais grave e urgente no Brasil hoje. O descontrole financeiro é democrático na sociedade, mas o impacto mais perverso recai sobre uma nova classe social.

Tanto no livro "A polarização no divã" quanto nas pesquisas mais recentes, se destaca um eleitor de classe média baixa, autônomo, endividado e que não se vê representado pelo governo petista. São essas as grandes vítimas das apostas online. Essa parte da sociedade não apostou nem se endividou para comprar comida, como Lula insiste em dizer.

Essas pessoas apostaram nas bets e se endividaram no cartão para ter renda extra, viajar, fazer churrasco, satisfazer seus sonhos de consumo. "Há uma fantasia de ganhar dinheiro fácil. E todo mundo gosta de se enganar um pouco, as pessoas sabem e admitem que estão entrando numa cilada", explica o pesquisador.

As pesquisas mostram a realidade de uma fatia importante do eleitorado que continua indecisa, e se ressente das políticas dos governos petistas. Admitir a existência dessa nova classe social para conquistar o eleitor exige de Lula e do PT uma revisão profunda sobre as mudanças no mundo do trabalho e a divisão de classes sociais. Eles são vistos como trabalhadores, mas se veem como empreendedores, autônomos, querem consumir e estão confortáveis com a economia de livre mercado.

O que eles pedem do Estado? Segundo Sincofsky, querem educação financeira, especialização, linhas de crédito e de investimento adequadas ao seu poder de consumo. Esse eleitor não quer o "desenrola", ele quer ajuda do governo para aprender a se desenrolar e a se virar sozinho.

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