Os EUA rejeitaram uma declaração da ONU que defendia colaboração internacional para prevenir e responder a futuras pandemias, informou o The New York Times.
O que aconteceu
Documento discutido em reunião de alto nível da ONU é considerado principalmente simbólico e não tem força legal. Mesmo assim, a adesão universal seria um sinal político de compromisso global com a preparação para novas emergências sanitárias.
Rejeição de países ricos expôs novamente a divisão vista na pandemia de coronavírus. Naquele período, países de baixa renda demoraram mais de um ano a mais do que nações ricas para conseguir vacinas para a população.
Representando os EUA na sessão, a médica Erica Schwartz, nova diretora do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), disse que o texto ainda trazia pontos inaceitáveis. "Apesar de algumas revisões significativas, o documento incluiu ideologias divisivas que não têm consenso de definição, e os Estados Unidos não estão em posição de apoiar este texto integralmente", afirmou.
Declaração deve voltar à pauta em uma futura reunião da Assembleia Geral e ainda pode ser aprovada. A expectativa, segundo a reportagem, é que o texto reúna votos suficientes para ser adotado, mesmo sem o apoio de Washington.
O que travou o acordo
Motivos para as resistências variaram entre os países, com foco em propriedade intelectual e linguagem política. União Europeia disse que o texto cruzava "linhas vermelhas" sobre proteção de patentes e defendeu que a transferência de tecnologia seja voluntária e em termos acordados entre as partes.
Governo Trump contestou trechos por razões ideológicas e pediu mudanças ao longo da negociação. Um rascunho inicial visto pelo The New York Times indicava que os EUA solicitaram a retirada de menções a equidade, solidariedade e acesso universal a serviços de saúde sexual e reprodutiva.
Itália também rejeitou explicitamente o texto, enquanto outros países apontaram ressalvas sem romper. Índia e Alemanha manifestaram dúvidas sobre a redação, mas não chegaram a rejeitar a declaração, de acordo com a reportagem.
Reações e pano de fundo
Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia e copresidente de um painel independente sobre preparação e resposta a pandemias, criticou o impasse. "É decepcionante que a reunião de alto nível não tenha sido convidada a endossar a declaração política que havia sido negociada pelos Estados-membros. Concordar em colaborar para prevenir, se preparar e responder a pandemias não deveria ser controverso", disse.
Para Peter Maybarduk, diretor de acesso a medicamentos do grupo de advocacy Public Citizen, a posição dos EUA prejudica até os próprios americanos. "Bloquear uma cooperação reforçada contra pandemias é um erro óbvio, míope e não forçado. A Casa Branca adora falar em fazer outros países cumprirem sua parte, mas está perdendo a chance de ajudar isso a acontecer aqui, só para servir a uma ideologia míope", afirmou.
Diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus minimizou o fato de o texto ir a voto em outra data. "É a democracia em ação", disse em entrevista coletiva.
Discussão ocorre em meio a negociações mais amplas sobre um tratado de pandemias na OMS, que não inclui mais os EUA. Helen Clark cobrou avanço nas tratativas: "Um caminho deve ser encontrado através do atual impasse nas negociações", afirmou.
Países também citaram fatores ambientais e climáticos como risco crescente para novas emergências sanitárias. "Mudança climática, pressão sobre o uso da terra e o movimento de pessoas e animais estão empurrando patógenos através de barreiras entre espécies com mais e mais frequência", disse o primeiro-ministro de Ruanda, Justin Nsengiyumva.
Presidente da Assembleia Geral, Khalilur Rahman defendeu a atuação da ONU em preparação para pandemias. "A Carta e as Nações Unidas foram projetadas precisamente para enfrentar desafios globais para os quais nenhuma resposta isolada de um único país pode ser suficiente", afirmou.
Tedros também rebateu a ideia de que acordos internacionais de saúde tirariam soberania dos países. "O acordo de pandemia e o RSI (Regulamento Sanitário Internacional) não —repito, não— infringem a soberania nacional de forma alguma. Pelo contrário, eles foram negociados e adaptados por Estados soberanos como um ato de sua soberania, porque reconhecem que pandemias não respeitam fronteiras", disse.
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