A confeiteira Mayanne Oliveira, 36 anos, passou os últimos anos com obesidade. No início deste ano, participou de um estudo clínico patrocinado pela Nestlé — a mesma fabricante de leite condensado, creme de leite, chocolate em pó, entre outros produtos que Oliveira costuma usar nos seus bolos.
O objetivo era observar deficiências nutricionais que surgem durante o tratamento com medicação antiobesidade e identificar o quanto o uso de canetas emagrecedoras, aliado a exercícios regulares, nutrição balanceada e suplementos diários, pode melhorar a saúde do paciente. Em seis meses, Oliveira perdeu 14 kg. Reduziu de 50% para 40% o percentual de gordura e manteve a massa muscular em 27 kg.
O suplemento testado foi o Nutren Control, lançado em 2021 pela Nestlé para pacientes com diabetes, que acaba de receber o selo "apoio nutricional à jornada GLP-1". O hormônio GLP-1 aumenta a sensação de saciedade, efeito imitado pelas canetas emagrecedoras.
O selo é uma das estratégias adotadas pela empresa diante da disseminação global de hábitos de consumo mais saudáveis e ilustra o esforço que a Nestlé tem pela frente na era das canetas. Esses medicamentos são usados hoje por 25% dos brasileiros das classes A, B e C, segundo estudo da própria multinacional suíça.
A fabricante dos biscoitos Passatempo e Bono, do achocolatado Nescau, do leite condensado Moça, entre outras guloseimas, está vendo a demanda por ultraprocessados cair, à medida que mais estudos associam o consumo desses alimentos a doenças. O fenômeno das canetas emagrecedoras vem acelerar esse processo.
A transformação no mercado de alimentos é mais um desafio para a companhia, que, em 2025, teve queda de 2% no faturamento na comparação com 2024, enquanto o lucro líquido diminuiu 17%. No primeiro semestre deste ano, a receita recuou 2,5%, período em que o lucro encolheu 31%.
Reação à onda fitness
A companhia anunciou neste mês investimentos de R$ 2 bilhões na divisão brasileira de nutrição e saúde até 2028. Os aportes envolvem uma nova fábrica de fórmulas infantis em Ituiutaba (MG), a modernização do complexo industrial de Araçatuba (SP), onde é fabricada a linha de Nutren Control, e a adaptação da fábrica de Carazinho (RS) para produção de soro de leite, a base do whey protein.
Criada este ano, a área de nutrição e saúde está entre as principais avenidas de crescimento da Nestlé no país e no mundo, reunindo nutrição adulta, infantil e médica.
O Brasil é o terceiro maior mercado global da multinacional, atrás apenas de Estados Unidos e China. "É um dos principais motores de crescimento da companhia nas Américas", diz Marcelo Citrângulo, vice-presidente de nutrição e saúde da Nestlé Brasil, lembrando que a marca está presente em 99% dos lares do país.
Prestígio vai virar barrinha de proteína
Como boa parte da indústria alimentícia, a Nestlé também tem procurado surfar na onda dos alimentos proteicos. Em 2024, a empresa tinha apenas uma categoria dedicada à proteína, com a linha Nutren. Em 2025, foram cinco categorias: além de Nutren, foi lançado o Nescafé Pró Energy, a Aveia Proteína, o Nescau Protein e a linha Puravida, de suplementos e snacks funcionais.
No início deste ano, em parceria com a Nutrata, a Nestlé lançou a barra proteica Charge. Em outubro, será a vez da barra de proteínas Prestígio chegar ao mercado. "Nossa meta é dobrar o número de categorias de alimentos proteinados em 2026", diz Gisele Pavin, gerente executiva de nutrição, saúde e bem-estar da Nestlé Brasil.
Isso significa menos guloseimas na dispensa dos brasileiros? "A busca por saúde, bem-estar e uma alimentação nutricionalmente equilibrada ganhou relevância, mas isso não significa que experiências de indulgência deixem de fazer parte da vida das pessoas", afirma a executiva.
Após a pandemia, quando o vírus da Covid-19 se mostrou mais fatal para obesos e pacientes com baixa imunidade, a adoção de um estilo de vida mais saudável ganhou status de urgência, movimento reforçado pelas canetas emagrecedoras.
Pesquisa da consultoria Scanntech, divulgada em junho, aponta que o uso de medicamentos à base de GLP-1 reduziu em 0,49% ao ano o volume total de alimentos vendidos nos supermercados no Brasil. O impacto é mais intenso nas cestas associadas à indulgência, com destaque para cerveja (-1,03%), petiscos e snacks (-0,82%) e chocolates (-0,72%).
De outro lado, cresce a venda de categorias associadas à saúde: alimentos frescos (+11,5%), academia e bem-estar (+9,6%), suplementos proteicos (+9,1%), água com e sem gás (+7,9%) e vitaminas e suplementos (+7,4%). O levantamento procurou isolar o crescimento do consumo dos medicamentos GLP-1 de fatores externos, como renda, emprego, endividamento e condições climáticas.
Comida para pet vende mais do que chocolate e biscoito
Os próprios números da Nestlé confirmam a tendência. Entre 2016 e 2025, as vendas globais da líder mundial em alimentos ficaram praticamente estagnadas em 89,5 bilhões de francos suíços (R$ 621,4 bilhões) ao ano, intervalo em que o lucro líquido caiu 28%, para 9,03 bilhões de francos suíços (R$ 62,7 bilhões).
A participação de cada categoria no faturamento, porém, mudou bastante: as bebidas em pó e líquidas, onde estão marcas como Nescafé, saíram de 22% em 2016 para 28,1% em 2025. No mesmo período, deslanchou a venda de produtos para pets, que saltaram de 13,5% para 20,6% do faturamento.
Hoje, a divisão pet da Nestlé representa mais do que toda a divisão de guloseimas (9,7%), com seus chocolates e biscoitos, e de sorvetes e produtos lácteos (10,8%).
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