POR LUIZ GUILHERME PIVA1.Nos intervalos e nos finais de jogos, os repórteres param alguns jogadores para supostamente entrevistá-los.As perguntas são iguais, longas, descritivas. As respostas são evasivas, desnecessárias.Se a suposta entrevista fica muito curta, os repórteres emendam outra pergunta, também vazia e inútil.É a pauta.Não jornalística.Mas sim a do tempo de exposição das marcas no painel atrás dos jogadores.A maioria, de bets.Que, no mínimo, por justiça, deveriam pagar uma porcentagem aos repórteres e jogadores por atuarem como garotos-propaganda desavisados.Mas o certo mesmo seria acabar com os painéis.Só que isso, claro, extinguiria as entrevistas.Que, aliás, não fariam nenhuma falta.2.Numa cena do filme "O caso Collini" (2019), pai e filho se reencontram na época e no lugar em que haviam sido separados cerca de sessenta anos antes.O filme trata de justiça, vingança, direito, guerra, mentiras e verdades.Toda a trama se resolve independentemente dessa cena.Ela poderia nem existir.O filme ficaria de pé.Mas é nela que pai e filho se reencontram sessenta anos depois, com as idades, vidas, ruas e casas em que estavam quando foram separados.E o que os reúne é uma bola de futebol.Uma bola das antigas, de couro marrom, com tiras retangulares, rolando no calçamento da vila em que eles viviam e vivem ainda e de novo.E nada mais poderia fazê-lo melhor do que uma bola de futebol.Só ela, e nenhuma outra coisa, seja palavra, ou imagem, ou objeto, ou som, nada, só ela rolando no calçamento irregular da vila até ser recolhida por pai e filho, que seguem suas vidas, retomadas a partir dali, abraçados a ela, poderia reuni-los no tempo e no espaço.Só uma bola de futebol.Um pai e seu filho.Um filho e seu pai.E uma bola de futebol.Você eu não sei.Eu choro de sacolejar.3.A numeração das camisas dos jogadores deveria, obrigatoriamente, ser de 1 a 11.O meio de campo com os números 5, 8 e 10, o ataque, com os números 7, 9 e 11, e o goleiro, com a 1.Na zaga, aceitam-se variações para o lateral direito e um dos zagueiros, que alternam os números 2 e 4; mas para o 3, do outro zagueiro, e o 6, do lateral esquerdo, não.Mas já faz um tempo que são usadas dezenas altíssimas como norma e raramente aqueles números tradicionais.Deve chegar logo o momento de se utilizarem as centenas.Depois, os milhares.E então haverá material para mais apostas.Se não nas bets, com certeza no jogo do bicho.4.Todos os locutores de futebol pronunciam "Jam" quando o jogador se chama Jean.E pronunciam "Sámuel" Lino, em vez de Samuel Lino.(Repórteres de outras áreas falam "céssar-fogo", em lugar de cessar-fogo.)Ao menos um locutor grita "guol" em vez de gol.Todos os comentaristas veem muita intensidade em todos os jogos.Todo mundo, de todas as áreas, fala "a gente" em lugar de nós - que é candidato a ser encostado no mesmo museu do vós.Também usa o pronome pessoal depois de usar o sujeito: "fulano, ele declarou", "o jogo, ele será realizado", "os jogadores, eles viajaram" e assim por diante.E, depois de décadas aturando o "a nível de" e o "enquanto", agora adotou-se "lugar" para substituir "condição", "posição" e "situação".Assim: a gente, neste lugar de espectadores, vê Jam e Sámuel Lino, eles tabelarem com muita intensidade.Na conclusão da jogada, Sámuel Lino, no seu lugar de artilheiro, ele chuta no canto e...É guooooool!________________________________________Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" - ambos pela Editora Iluminuras
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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