A montadora audiovisual e poeta carioca Maria Rezende, 47, decidiu ter sua filha, Luzia, aos 44, de forma independente. Após dois casamentos e com óvulos congelados, fez as pazes com o tempo e entendeu que não precisava seguir o roteiro tradicional de formar um casal para construir uma família.
"Eu achava que a vida era uma linha pontilhada que eu tinha que seguir e que estava o tempo todo errando, atrasada. Aí me veio um insight: a vida é o caminho que eu fizer. Não posso estar atrasada por um tempo que não existe."
O anúncio da gravidez da apresentadora Maju Coutinho, aos 48 anos, recolocou a maternidade considerada tardia em pauta, como já ocorreu com Cláudia Raia, Solange Couto, Viviane Araújo e Sabrina Sato. Durante um episódio do programa Saia Justa (GNT), Maju falou sobre a pressão em torno da fertilidade. "O mais difícil é separar o que é genuinamente uma vontade e o que é pressão de uma cultura que diz que eu tenho que ser mãe."
Essa cultura parece estar mudando. Dados do IBGE mostram que a maternidade depois dos 40 se tornou mais frequente. De 2004 para 2024, o número de nascidos vivos com mães mais velhas, de 40 anos ou mais, aumentou 71,8%. Passou de 59,9 mil para 102,8 mil.
A Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) classifica como gestação tardia aquela que ocorre a partir dos 35 anos, devido à queda natural da fertilidade.
Preocupação com o futuro e o cuidado
A diferença de idade fez Maria temer morrer quando Luzia ainda fosse muito nova. Porém, lembrou-se de amigas que nasceram quando a mãe ainda era jovem, mas que a perderam precocemente.
"Esse medo que a gente tem de ser mãe mais velha e de faltar para os nossos filhos é superlegítimo. Mas muitas pessoas perdem seus pais muito cedo. Então, na verdade, nada é garantido."
Hoje ela transforma esse sentimento em cuidados consigo mesma. Diz estar malhando mais, comendo melhor e monitorando a saúde. Ela diz para Luzia: "A mamãe vai na ginástica ficar forte, porque você é pesada".
Maria, que também celebra casamentos e trabalha como freelancer, se preocupou com a instabilidade financeira e a falta que faria uma licença-maternidade. Mas também vê o lado bom das próprias escolhas. "Eu consolidei minha vida profissional sem a responsabilidade de ter filhos desde jovem, e isso me deu muita liberdade e autonomia."
Para a psicóloga Paula Navarro, temas como a finitude podem surgir mais cedo, mas o que vai ditar se isso será um problema ou não é a dinâmica da família.
Navarro estuda a parentalidade tardia. Em sua dissertação de mestrado defendida na PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), em 2018, ela entrevistou seis adultos, de 25 a 29 anos, nascidos quando pelo menos um dos pais tinha mais de 40.
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O trabalho concluiu que os participantes valorizavam a experiência dos pais, mas viviam também conflitos e diferenças culturais entre as gerações. Todos disseram ter enfrentado alguma dificuldade na saída da casa dos pais, e preocupações com saúde, solidão e finitude também apareceram.
Duas experiências como mãe
Leila Barros Hoche, 51, viveu a maternidade em momentos diferentes da vida: teve Jhonatan (32) aos 19, Geovanna (18), aos 32, e a caçula, Nicole (11), aos 40. "Na primeira vez ainda estava descobrindo quem eu era. Aos 40, curti a maternidade com muito mais maturidade, tranquilidade e consciência", diz.
Na primeira vez ainda estava descobrindo quem eu era. Aos 40, curti a maternidade com muito mais maturidade, tranquilidade e consciência Leila Barros Hoche foi mãe de Jhonatan (32) aos 19, de Geovanna (18) aos 32 e da caçula, Nicole (11), aos 40
Na primeira vez ainda estava descobrindo quem eu era. Aos 40, curti a maternidade com muito mais maturidade, tranquilidade e consciência
foi mãe de Jhonatan (32) aos 19, de Geovanna (18) aos 32 e da caçula, Nicole (11), aos 40
A experiência não eliminou as dúvidas nem devolveu a energia dos 19 anos. "Será que eu ainda lembro como faz?", perguntava-se. Também temeu não acompanhar todas as fases da filha, mas deixou de antecipar o futuro. "Hoje prefiro viver cada etapa dela com intensidade."
Para Nicole, que gosta de ver filmes, passear e ir à academia com a mãe, a idade nunca foi uma questão. Pelo contrário. Ela se diverte com a troca cotidiana. "Ela me ensina várias coisas da escola, e eu, muita coisa do TikTok, mesmo tendo que explicar três vezes a mesma coisa", brinca a menina, observada por Leila.
A caçula reorganizou os papéis entre os irmãos. Leila diz ter deixado claro que eles poderiam ajudar, mas não criar a irmã. Na prática, porém, os mais velhos perceberam a fronteira de outro modo. Durante dificuldades financeiras, Jhonatan assumiu funções além das de irmão.
"Precisei ajudar como podia. Até hoje, tenho uma relação muito próxima com as minhas irmãs e acredito que elas me enxergam não apenas como irmão, mas também como figura paterna", afirma o gerente de produção.
Geovanna participou da rotina enquanto a mãe trabalhava. "Eu sinto que ajudei a criá-la demais. E sempre amei fazer parte." Hoje se vê como irmã, amiga e referência adulta e, às vezes, como a "irmã adulta chatinha", brinca a analista administrativa.
Nicole confirma essa mistura de lugares. Define Geovanna como "uma segunda mãe e uma amiga" e diz que Jhonatan "às vezes dá uma de pai falando para eu ter cuidado com as coisas". Faz, porém, uma distinção: "Ele também é meu irmão, um amigo muito importante para mim".
Navarro afirma que não é a diferença de idade, mas o peso das tarefas que transforma o irmão numa figura quase parental. "Quando a autoridade segue com os pais e os filhos permanecem no lugar de filhos, o mais velho consegue ser apenas um irmão: alguém que apoia, mas que não tem obrigações ou responsabilidades excessivas."
O julgamento dos outros
Para essas famílias, a percepção da idade das mães costuma vir do ambiente externo. Leila lembra, por exemplo, de ser chamada de louca. "Mas aprendi a não permitir que a opinião dos outros determine meus sonhos."
A advogada Raquel Saad, 32, frequentemente ouvia de colegas da escola que sua mãe, Amélia, 70, parecia ser sua avó. "Mas, em casa, a idade nunca foi tema. Crescer entre mais velhos me fez ter uma infância amadurecida", diz ela, que tem dois irmãos, de 40 e 37 anos.
Raquel afirma que o envelhecimento ficou mais concreto durante a pandemia, porque os pais entraram no grupo de risco. Após se mudar de Goiânia para São Paulo, ela decidiu visitar os pais uma vez por mês e reforçar os cuidados com a mãe, incentivando-a, por exemplo, a se exercitar, mas sem tratá-la como dependente. "Eu tento cuidar sem tirar a autonomia dela."
Navarro encontrou essa tensão na "saída do ninho" em sua pesquisa, principalmente quando há doença envolvida. "Existe uma dupla dificuldade. Os pais mais velhos seguram o filho por medo da solidão, e o filho sente culpa de sair. Cuidar não é infantilizar, mas negociar escolhas mantendo o respeito à história dos pais."
A psicóloga acrescenta, porém, que se o pai ou a mãe estão bem e são independentes, o filho sente mais segurança. "Uma velhice saudável muda completamente o clima emocional da família."
Se Maria recusou a ideia de que havia chegado atrasada à maternidade, Leila encontrou outra forma de medir o tempo: pela qualidade da presença.
"Eu não consigo impedir o tempo de passar, mas posso escolher como vivê-lo. Quero que ela tenha lembranças de uma mãe presente, que brincava, conversava, abraçava e estava verdadeiramente interessada na vida dela."
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