A manutenção da taxa básica de juros em um patamar acima de dois dígitos há quatro anos e meio passou a limitar o volume de vendas do comércio. As perdas, no entanto, não são generalizadas e afetam, principalmente, as atividades mais dependentes do crédito.
Juro alto freia comércio
Vendas do varejo encolheram em julho, após dois meses de avanço. Após crescer em maio (+0,2%) e junho (+0,3%), o setor encolheu 0,8% em julho. A queda apontada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) afasta em 1,5% o setor do ponto mais alto da série histórica, registrado em março. "A gente voltou ao patamar de dezembro de 2025", afirma Cristiano Santos, gerente da PMC (Pesquisa Mensal do Comércio).
Setor sofre com o elevado nível da taxa básica de juros da economia. Apesar da recente queda de 1 ponto percentual da taxa Selic neste ano, de 15% para 14% ao ano, a política monetária restritiva prejudica a intenção de compras. "A queda do varejo reforça que os juros elevados já estão freando o consumo mais rapidamente que o mercado projetava", diz Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
Cenário abre margem para corte da taxa Selic nesta quarta-feira (16). As expectativas do mercado financeiro apontam para o quinto corte seguido de 0,25 ponto percentual dos juros básicos, de 14% para 13,75% ao ano. A desaceleração do comércio surge como um novo estímulo para o veredito do Copom (Comitê de Política Monetária). "Essa perda de fôlego da economia entra na conta do Copom para a decisão", avalia Claudia Moreno, economista do C6 Bank.
O resultado das vendas no varejo reforça a tendência mostrada pelos últimos indicadores de atividade divulgados, de desaceleração em um ritmo mais forte do que o previsto. Esse cenário abre espaço para o Copom justificar um corte de 0,25 ponto percentual da taxa Selic. Sara Paixão, analista da InvestSmart XP
Um corte na Selic ajuda, mas ainda é insuficiente para mudar rapidamente esse quadro, porque o crédito continua caro e a transmissão da política monetária ocorre com defasagem. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos
Efeito diverso entre as atividades
A pisada de freio do comércio não é acompanhada por todos os segmentos. Em julho, a queda foi acompanhada pelo desempenho negativo de cinco das oito atividades pesquisadas. As perdas partiram dos ramos de móveis e eletrodomésticos (-4,9%), livros, jornais, revistas e papelaria (-4,2%), tecidos, vestuário e calçados (-2,7%), outros artigos de uso pessoal e doméstico (-2,2%) e hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-0,2%).
Setor ainda mantém alta na comparação com o mesmo mês do ano passado. Na comparação com julho de 2025, as vendas do varejo também desaceleraram ao crescer 1,2%, ante alta de 2,8% apurada em junho. A variação ocorreu mesmo com perdas das atividades de tecidos, vestuário e calçados (-4,7%), eletrodomésticos (-3,6%), móveis (-2,7%), outros artigos de uso pessoal e doméstico (-2,3%), material de construção (-2%), livros, jornais, revistas e papelaria (-1,7%) e combustíveis e lubrificantes (-0,5%).
Pressão do crédito e da renda limitam desempenho do comércio. As baixas registradas envolvem segmentos sensíveis ao aperto monetário, mas o endividamento também pesa no bolso das famílias. "Os setores mais sensíveis ao crédito recuaram 0,2% em julho, após queda de 1,5% em junho, enquanto os segmentos mais dependentes da renda tiveram retração de 0,4%, revertendo a alta de 0,3% observada no mês anterior", diz Alberto Ramos, chefe de pesquisa econômica do Goldman Sachs para América Latina.
Crescimentos foram observados entre as vendas de bens essenciais. Na comparação anual, os artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos lideraram os ganhos (+4,7%). Na sequência, aparecem os hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (+2,9%) e os equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação (+2,5%).
As únicas atividades que avançaram no mês no varejo restrito são de bens essenciais e apresentaram variações tímidas, enquanto as categorias mais associadas à demanda discricionária apresentaram recuos consideráveis. André Valério, economista sênior do Inter
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