A FAB (Força Aérea Brasileira) investiga os registros de áudio de um voo para Varginha (MG) em que um piloto questionou a mudança de rota. O caso, ocorrido no dia 4 de setembro, repercutiu após a comunicação entre a aeronave e o controle de tráfego aéreo ser divulgada nas redes sociais. Na ocasião, uma voz disse ao piloto: "Amigão, você não manda nem em casa, quer mandar aqui?".
O que aconteceu
FAB disse ao UOL ter conhecimento do caso e que analisa tecnicamente o áudio da frequência de comunicação utilizada no momento do registro do episódio. Em nota, o órgão ressaltou que a atuação do piloto e do controle de tráfego aéreo seguiram os padrões operacionais com "cortesia e profissionalismo estabelecidos para a prestação dos serviços de navegação aérea no Brasil".
Frequências aeronáuticas são destinadas exclusivamente à coordenação e à comunicação relacionadas às operações de voo, afirmou a FAB. De acordo com o órgão, condutas inadequadas nesses canais são passíveis de análise e medidas administrativas cabíveis, conforme a legislação aplicável. Eles não apontaram se é possível encontrar o responsável pelo envio da declaração.
Os registros de fonia e os dados operacionais pertinentes estão sendo analisados pelo DECEA [Departamento de Controle do Espaço Aéreo] para o devido esclarecimento do episódio, reafirmando o compromisso do DECEA com a segurança e a fluidez do espaço aéreo.FAB, em nota
Órgão destacou que o gerenciamento do fluxo de tráfego aéreo e eventuais alterações de rota são realizados a partir de critérios técnicos e operacionais. Eles explicaram que a prioridade é a segurança, regularidade e eficiência das operações aéreas. As autorizações e suas alterações podem ser realizadas pelo órgão de controle sempre que necessário para gerenciar o tráfego aéreo e evitar possível conflito entre as aeronaves, de acordo com Instrução do Comando da Aeronáutica.
Entenda o caso
No dia 4 de setembro, um piloto recebeu a orientação do controle de tráfego aérea para mudar a rota com destino ao aeroporto de Varginha, em Minas Gerais. A aeronave, um Cessna 525 CitationJet M2, matrícula PS-KCI, saiu do Rio de Janeiro. De acordo com a página no Instagram "AeroRadar", a comunicação do rádio mostrou que o piloto questionou a alteração visto que a nova trajetória alterava muito a rota prevista no plano de voo e o faria se distanciar do destino antes de retornar à rota anterior.
Controladora alegou que a medida era necessária em razão de outras aeronaves estarem transitando no sentido contrário em direção ao Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Depois da conversa, o trajeto foi alterado para uma opção menor, segundo observação da página nos aplicativos de rastreamento de voo. As siglas PIRAÍ, NIGMA e MUDKA citadas no áudio são pontos de referência para navegação aérea usados para definir rotas.
Ainda durante a transmissão, depois das perguntas do piloto, uma voz na mesma frequência foi emitida e fez o comentário. "Amigão, você não manda nem em casa, quer mandar aqui."
Nos comentários da página, o piloto do voo, Pedro Costa, se apresentou e esclareceu alguns pontos. Ele declarou que a mudança do plano de voo representava um desvio considerável e impactaria na distância, no tempo de voo e no consumo de combustível —este último calculado a partir da rota inicial—, e, por isso, questionou o controle de tráfego.
Pedro ressaltou que nunca teve o objetivo de contestar a autoridade do órgão ou não cumprir a instrução. Ele explicou que apenas buscava entender se a mudança era necessária e precisava avisar que ela traria impacto operacional para a aeronave. Depois da explicação do controle de tráfego, de acordo com o piloto, a situação foi compreendida e o voo seguiu normalmente.
Por fim, ele definiu o comentário como "lamentável" e afirmou que foi feito por outro piloto na frequência utilizada por ele. A FAB não confirma se um piloto fez a declaração. "Além de desnecessário, esse tipo de intervenção não acrescenta absolutamente nada à segurança ou à operação. A frequência aeronáutica deve ser utilizada de forma profissional, objetiva e respeitosa, principalmente entre colegas de profissão."
Questionar ou esclarecer uma autorização que tenha impacto operacional não significa querer 'mandar' no controle. Significa exercer adequadamente a função de comandante, mantendo consciência sobre combustível, performance, rota e segurança do voo. Segurança operacional se constrói com comunicação clara entre pilotos e controladores, não com provocações pessoais na frequência.Pedro Costa, piloto, em nota
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