Morre Paulo Angioni, um dos mais importantes e melhores dirigentes que o futebol brasileiro já teve.
Éramos muito amigos, e a minha admiração pelo Paulo começou cedo, em 1984, no primeiro jogo de despedida do Magrão do futebol brasileiro antes de ir para a Fiorentina.
Esse jogo foi entre Corinthians e Vasco, em Juazeiro do Norte, e os times ficaram no mesmo hotel por dois dias, e tivemos diversas conversas porque ele sempre ficava com a gente, querendo saber mais sobre a Democracia Corintiana, que ele tanto admirava.
O Angioni era um cara muito inteligente, sensato e, com seu modo tranquilo de ser, conseguia resolver problemas do futebol que a grande maioria dos dirigentes não sabia como levar.
As suas virtudes como dirigente de futebol são notóriase conhecidas, e, para mim, ele foi o melhor com quem trabalhei, por ser honesto, sincero e muito confiável.
Um cara que cumpria sua palavra e um daqueles poucos homens no futebol em que o que falava valia de verdade.
Um dos motivos da minha volta ao Brasil, depois de sete anos na Itália, para o Flamengo, foi a presença do Paulo Angioni como gerente de futebol.
Naquela época, não havia redes sociais, celulares no Brasil ou canais a cabo, e as informações eram quase nenhumas sobre o futebol brasileiro na Itália.
Quando conversei com o então presidente do Flamengo, Luiz Augusto Veloso, na sede do Torino, saber da presença do Paulo na Gávea foi determinante para que eu escolhesse o Flamengo.
Sempre quis jogar no Rio, principalmente no Flamengo, mas não conhecia ninguém por estar fora há muito tempo, e minha única referência como dirigente era o Paulo Angioni.
Quando cheguei ao Flamengo, o clube estava em uma crise financeira enorme e, pela vontade que tinha de jogar lá, facilitei toda a negociação e abri mão de metade do que ganhava no Torino para fechar a contratação.
Durante o período em que estive lá, não recebi nenhum salário, mas confiava no que me diziam o presidente Veloso e os dirigentes Paulo Angioni e Isaías Tinoco, e nunca reclamei ou ameacei não jogar.
Quando acabou o ano e decidi voltar ao Corinthians, o Paulo Angioni deu um cheque para mim e outro jogador, e nos pediu para não depositar naquele momento, porque iria prejudicar o clube.
Eu não depositei, mas o outro cara depositou, e o Paulo me ligou, me chamou na Gávea e me explicou o que havia acontecido.
Devolvi o cheque e ele me deu uma carta assinada por ele, em dezembro de 1993, se comprometendo a que o clube me pagaria até março de 1994. Caso não pagasse, começaria a correr juros, e eu peguei a carta e fui embora sem nenhuma dúvida de que tudo se resolveria, porque confiava plenamente no Paulo Angioni.
E tudo foi resolvido algum tempo depois, pois o Flamengo cumpriu direitinho com o acordo que estava naquela carta.
É uma perda irreparável não só para o nosso futebol, mas para a sociedade carioca e brasileira, porque é um ser pensante a menos num momento em que tanto precisamos de pessoas como ele.
Conversávamos muito por mensagem sobre tudo, porque, além do respeito que tínhamos, havia uma grande admiração um pelo outro.
Na época da Democracia Corintiana, o nome de Paulo Angioni surgia muitas vezes nas nossas conversas, e sempre falávamos que ele era um dos nossos e que seria incrível que ele trabalhasse com a gente.
Fiquei bastante triste quando acordei pela manhã e li a coluna do Paulo Vinícius Coelho sobre a sua morte.
Meus sentimentos aos familiares, amigos e um grande beijo para o meu amigo Paulo Angioni.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
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