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Folha de S.Paulo há 95 d • 28/07/2026 15:00

Brasil Paralelo confunde a direita evangélica com o Brasil evangélico

A Brasil Paralelo lançou um documentário para apresentar quem são os 47,4 milhões de brasileiros que se declaram evangélicos, segundo o Censo de 2022. A produção faz sentido para uma das principais plataformas audiovisuais da direita cujo repertório é baseado em um catolicismo conservador e que aproveita o ano eleitoral para ampliar sua base de assinantes. O resultado é um retrato dos evangélicos pelo olhar de uma parte da direita, mais atento à mobilização política do que à vida de fé.

Nos cerca de 40 minutos iniciais, o Brasil Evangélico apresenta um panorama informativo da Reforma Protestante, da chegada dessas ideias ao país e das ondas do pentecostalismo. Há simplificações, mas também boas explicações sobre pertencimento e a capilaridade das igrejas.

Depois, o documentário passa para uma salada de bancada evangélica, aborto, progressismo, Bolsonaro e STF (Supremo Tribunal Federal). Assim, o percurso histórico não leva a uma investigação sobre como as diferenças teológicas moldam a vida dos evangélicos, mas diretamente a Brasília.

Mesmo dentro da direita evangélica, o filme registra divergências. O pastor e youtuber Yago Martins acusa Bolsonaro de usar a igreja em benefício próprio, enquanto o professor Davi Lago alerta que subordinar o púlpito a uma ideologia distorce o Evangelho. No outro extremo, o pastor Jack declara não ter problema com uma teocracia. Mas a variedade vai apenas do conservador crítico ao bolsonarista roxo. Ficaram de fora os evangélicos de esquerda e aqueles que rejeitam a identificação partidária.

Na prática, pastores, parlamentares e intelectuais têm mais espaço para explicar o que as igrejas fazem do que pessoas comuns. Há poucas imagens de pequenos grupos, famílias ou da rotina das comunidades. Quando sai às ruas, concentra-se na Marcha para Jesus, onde religião e mobilização política já se misturam. Relatos de conversão e cura aparecem, mas a conversa logo se desloca para o voto.

O filme adota uma perspectiva curiosamente materialista para uma produção conservadora. O trabalho de igrejas em presídios, comunidades terapêuticas, periferias e regiões onde o Estado mal chega recebe reconhecimento. No entanto, a fé é observada principalmente pelo que produz do lado de fora: assistência, capilaridade, crescimento e votos.

Ainda chama a atenção a presença de dois apologetas católicos, Bernardo Küster e o padre José Eduardo, como intérpretes do movimento. Seja qual for a intenção dos produtores, Küster apresenta a descentralização evangélica como fonte de confusão, enquanto José Eduardo afirma que a Igreja Católica nada tem a aprender com os protestantes em matéria doutrinária, embora possa imitar o acolhimento e sua atuação prática. Assim, o elogio aos evangélicos vale da porta da igreja para fora, quando ocupam territórios, prestam serviços ou, sobretudo, acumulam força política.

Ao apresentar essa cobeligerância conservadora como o Brasil evangélico, o filme reforça a pretensão das lideranças mais organizadas da direita de falar em nome de quase 50 milhões de pessoas. Um título mais honesto seria "A Direita Evangélica no Brasil".

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