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UOL há 51 d • Qui, 10 Set 2026 07:00:00 -0300

O dia em que Deus deitou no divã de Augusto Cury

Augusto Cury, candidato a presidente, escreveu cinco livros sobre Jesus. De início, o autor afirma que sua intenção é estudar o personagem sob a ótica da ciência, valendo-se especialmente da psiquiatria e da psicologia. Entretanto, o que se observa ao longo das obras é uma leitura eminentemente religiosa, em que passagens bíblicas são revestidas de termos científicos como mero recurso retórico.

Qual é o retrato de Jesus que emerge nos livros de Cury? Ao longo da série, o autor examina livremente passagens da vida de Cristo. Os episódios narrados nos evangelhos são comentados de forma arbitrária e constantemente conectados aos conceitos psicológicos criados pelo próprio Cury em obras anteriores.

Nesse processo interpretativo, contudo, o escritor comete erros crassos de análise bíblica que, em certos momentos, resvalam em claros preconceitos. O exemplo mais emblemático ocorre em sua leitura do encontro entre Jesus e a mulher samaritana, narrado no Evangelho de João.

Ao comentar o trecho, o presidenciável afirma que a "necessidade contínua de mudar de parceiro sexual" da samaritana seria uma "evidência clara da sua dificuldade de sentir prazer", revelando relações interpessoais "frágeis e sem raízes". Essa interpretação carece de qualquer lastro histórico, cultural ou textual, refletindo um anacronismo psicológico aliado a um preconceito de gênero.

No mundo antigo, as mulheres não tinham o direito de se divorciar ou de escolher seus parceiros. O divórcio era uma prerrogativa estritamente masculina. Logo, uma mulher não acumulava maridos por instabilidade emocional ou busca por prazer; ela simplesmente era repudiada pelo cônjuge ou ficava viúva.

Essa mesma fragilidade metodológica se manifesta quando Cury tenta definir as fronteiras de seu trabalho. No primeiro volume da série, ele sustenta que "a ciência foi tímida e omissa em investigar a inteligência de Cristo" e promete realizar uma análise inédita no campo da psicologia. Contudo, poucas páginas adiante, recua ao afirmar que os pensamentos de Cristo extrapolam os parâmetros científicos.

A construção desse discurso cria uma falsa tensão argumentativa: primeiro acusa-se a ciência de omissão, para em seguida absolvê-la sob o argumento de que o tema transcende a razão. O efeito prático dessa manobra é reforçar a ideia de que apenas a fé pode acessar tais verdades, sem assumir abertamente que a abordagem não possui caráter científico.

A busca por soar científico atinge momentos quase insólitos na obra. Ao tratar do dogma cristão do nascimento virginal de Jesus, Cury afirma que a ciência não pode comprovar o fato por falta de acesso ao material genético de Maria e de Cristo. Em seguida, porém, argumenta que a ciência tampouco poderia classificar o evento como impossível, afinal, existe a clonagem.

A proposta inicial do autor era investigar cientificamente a inteligência de Cristo a partir dos quatro evangelhos, aos quais se refere como "biografias de Cristo". Todavia, à medida que a reflexão avança, a ambição se expande desmedidamente: Cury deixa de analisar apenas os pensamentos do homem Jesus e passa a pretender examinar a própria mente de Deus.

O escritor chega a defender que os cursos de psicologia deveriam introduzir o estudo da personalidade de Jesus em seus currículos, de preferência, utilizando sua própria coleção de livros. O resultado final, contudo, passa longe da academia: trata-se de um conjunto de interpretações devocionais maquiadas por um verniz pseudocientífico.

Em suma, as obras não trazem nenhuma contribuição real ou novidade consistente sobre a inteligência e a mente de Jesus Cristo. Sobre a mente de Augusto Cury, por outro lado, as revelações são cristalinas: sobra pretensão e falta clareza metodológica, dois traços que, convenhamos, talvez sejam pré-requisitos fundamentais para o sucesso político.

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