A história de Serpui Marie na moda começou bem longe de passarelas e desfiles. Formada em Ciências Biomédicas com doutorado em Bioquímica, ela logo percebeu que seu futuro profissional não estava na ciência nem nos laboratórios.
Aos 24 anos, decidiu abandonar a carreira acadêmica para criar joias e acessórios. A atividade se tornaria sua grande paixão e a faria conhecida ao redor do mundo por peças autorais "made in Brazil".
"A brasilidade faz parte da nossa essência de forma natural e contemporânea", resume Serpui. Inspirada pela diversidade, pelas cores e pela natureza, ela transforma referências tropicais em peças que fazem sucesso por Estados Unidos, Europa e Ásia sem perder a identidade verde-amarela.
Elementos da fauna e da flora, formas orgânicas, tramas e combinações inesperadas aparecem reinterpretados pelo olhar sofisticado e cosmopolita de uma designer nacional que viu suas bolsas-desejo saltaram para as telas de séries de sucesso como "Emily in Paris" e "And Just Like That".
E tudo isso sem intermediação das caríssimas agências de Relações Públicas gringas, que fazem esse meio de campo com estrelas de Hollywood e produtores internacionais.
"Uns rapazes foram até o meu showroom em Miami e depois me mandaram um email com as encomendas da seleção que fizeram", conta Serpui. Ela se recorda de que um deles dissera: "Adorei o seu trabalho. É espetacular."
Da mesma forma, a atriz Sarah Jessica Parker endossou, nas telas da sequência de "Sex and the City", um modelo em palha, usado com alça transpassada.
Referendada por figuras icônicas da moda, a palha brasileira deixou de ser apenas um elemento regional e ganhou o status de objeto de desejo global.
Uma história que começa quando, sem experiência prévia em exportação, mas munida de uma intuição afiada e de muita pesquisa, Serpui cruzou o oceano nos anos 1990 para expor suas criações em feiras internacionais. "Eu pensei: 'Esse trabalho meu é tão bonito, é tão brasileiro, que tenho que mostrar isso para o mundo'. E fui."
Com um inglês ainda tímido e coragem, a designer passou a vender de imediato em multimarcas como Bloomingdale's, Saks Fifth Avenue, Barney’s, em Nova York, e as francesas Galeries Lafayette e Le Printemps.
Em 2003, a internacionalização da marca ganhou impulso com o apoio da Apex (Agência de Promoção à Exportação). E assim, Serpui, na companhia de outros nomes da moda nacional como Amir Slama, na época na Rosa Chá, e Alexandre Herchcovitch, passou a exibir seus produtos no exterior. "Era uma política de abrir mercado. E foi o que aconteceu", explica.
Atualmente, a Serpui exporta de 60% a 70% de sua produção, consolidando uma presença forte em butiques de luxo espalhadas por Europa, Estados Unidos e Ásia.
O ponto de virada global da marca aconteceu de forma orgânica, priorizando feiras em Miami e Nova York, e fortalecendo a rede de artesãos espalhados pelo Brasil com pagamento justo.
"Produzir no Brasil não é coisa fácil. O artesão é que dá alegria ao produto", reconhece a designer, baseada em São Paulo, mas que percorre o país em busca dos mestres do feito à mão. "Ganhei a confiança de todos que produzem para mim. E temos que pagar bem."
Um elemento extra é o apelo sustentável. A natureza não serve apenas como fonte estética, mas guia a própria forma como as cores e as formas são concebidas por Serpui em suas criações. Em diversas peças, a marca explora o tingimento natural a partir de frutas e folhas, transformando pigmentos botânicos em tonalidades exclusivas e cheias de nuances.
Herdeira de um caldeirão cultural único, Serpui é descendente de armênios que escaparam do genocídio durante a após a Primeira Guerra Mundial, que resultou no extermínio de 1,5 milhões de pessoas pelo Império Otomano entre 1915 e 1923.
Os pais de Serpui casaram no Líbano e depois encontraram refúgio e prosperidade no Brasil, deixando para trás uma história trágica de perdas, violências e fugas. Órfão da barbárie, seu avô paterno foi criado em um orfanato/escola no Líbano.
Batizada com um nome tradicional armênio, Serpui, à frente da marca homônima, encontrou na memória afetiva da infância o DNA da grife. "É um nome armênio, antigo. Hoje em dia não se usa mais." Marie é uma referência à França, porque a mãe nasceu em Beirute, na época do domínio francês.
"Minha mãe gostava das pedras brasileiras e de cestaria. Lembro de cestos de palha de milho espalhados pelo jardim da nossa casa onde passei a minha infância e adolescência em Londrina. Era bonito", recorda-se a primogênita, que planta memórias de bichos como papagaios e tucanos em peças autorais.
"Toda minha história com a moda vem da minha mãe, que adorava joias. Meu pai a presenteava com peças lindas. E como gringos, eles amavam pedras brasileiras, como ônix", rememora a design conhecida por unir a rusticidade da palha e do vime ao luxo de cristais e madrepérolas.
Uma frase repetida com frequência pelos pais reverbera no estilo da marca Serpui, especialmente em bolsas em homenagem à fauna verde-amarela: "O Brasil é o lugar mais maravilhoso que pode existir no mundo".
Ela repete o mantra familiar, sempre de malas prontas para levar preciosidades artesanais brasileiras para os quatro cantos do planeta.
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