A eleição estadual deste domingo (6) na Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, pode levar a ultradireita ao comando de um governo regional pela primeira vez no pós-guerra. Cerca de 1,7 milhão de eleitores têm até as 18h no horário local (13h de Brasília), para votar, quando as urnas serão fechadas.
O que aconteceu
O partido AfD (Alternativa para a Alemanha) aparece com vantagem ampla nas pesquisas e pode chegar a mais de 40% dos votos. Levantamentos citados na campanha apontam a sigla entre 40% e 43% das intenções, bem à frente de partidos de centro que governaram o estado nas últimas décadas. A CDU (União Democrata Cristã), partido do chanceler Friedrich Merz, aparece em segundo lugar, com 23%.
O resultado é tratado como quebra de tabu porque nenhum partido tão à direita quanto a AfD liderou um estado alemão desde 1945. Apesar de crescer em vários estados na última década, a AfD não tinha conseguido votos suficientes ou alianças para comandar um governo estadual.
A Saxônia-Anhalt virou um dos principais redutos da AfD por fatores econômicos e demográficos do antigo lado oriental do país. O estado tem pouco mais de dois milhões de habitantes, é majoritariamente rural e, segundo o retrato socioeconômico local, reúne menor renda per capita da Alemanha, desemprego acima da média e perda de população desde os anos 1990 por êxodo de jovens.
O candidato da AfD, Ulrich Siegmund, 35, disse que o partido já fez história antes da apuração. "Porque o que começamos aqui na Saxônia-Anhalt está se espalhando por toda a Alemanha e não pode mais ser detido", afirmou em ato no sábado, em Magdeburgo.
A eleição também pressiona o governo federal do chanceler Friedrich Merz, que enfrenta impopularidade e economia estagnada. A CDU, partido de Merz, governa a Saxônia-Anhalt desde 2002 e aparece cerca de 20 pontos atrás; Merz chegou a alertar que a chegada da AfD ao poder pode afugentar investidores.
O sistema parlamentarista estadual pode transformar votos em maioria de cadeiras mesmo sem a AfD passar de 50%. A cláusula de barreira de 5% pode excluir partidos menores do Parlamento local e redistribuir cadeiras, reduzindo o patamar necessário para uma maioria —em cenários citados, a AfD poderia precisar de cerca de 45,5% ou até 42,5%, dependendo de quem ficar fora.
Por que a chegada da AfD ao governo importa
Uma vitória com força para governar enfraquece o "cordão sanitário" que isola a AfD de coalizões com partidos tradicionais. A sigla nunca participou de uma coligação estadual porque rivais se recusam a governar com ela, mas uma maioria própria, ou a necessidade de negociar para formar governo, pode mudar a dinâmica política no país.
Mesmo com limites legais, um governo estadual da AfD teria margem para influenciar áreas em que os estados têm autonomia, como educação e segurança. O debate sobre o programa local ganhou peso justamente por incluir mudanças nessas áreas, com impacto direto na vida no estado.
A ascensão ocorre enquanto a AfD é monitorada por órgãos de inteligência e tem diretórios classificados como extremistas no leste alemão. Na Saxônia-Anhalt, o diretório estadual é classificado desde 2023 como "organização extremista de direita confirmada" pelo órgão estadual de proteção da Constituição; reportagens também apontaram conexões de alguns filiados com grupos neonazistas.
O que a AfD propõe no plano de governo
O candidato Ulrich Siegmund apresentou um plano de 100 dias com foco em endurecer imigração e rever políticas públicas. O programa prevê aumento de deportações de solicitantes de asilo rejeitados e expansão de centros de detenção de imigrantes, além de obrigar requerentes de asilo a trabalhar e criar escolas especiais para seus filhos.
Na educação, o partido defende mudanças que incluem ensino domiciliar e segregação de alunos com necessidades especiais. A AfD quer permitir o ensino domiciliar, abolir a inclusão em turmas mistas e, no estado, também propõe combater "linguagem neutra" e o que chama de "doutrinação" nas escolas.
O plano prevê regras simbólicas e de disciplina nas escolas, como bandeira alemã diária e veto a bandeiras do arco-íris. A proposta inclui proibir escolas de hastear a bandeira LGBT e exigir que a bandeira alemã seja hasteada diariamente.
A AfD também quer mexer em políticas de memória do nazismo no currículo e reforçar o ensino de russo. O programa menciona reduzir a presença da "cultura da memória" voltada aos crimes do período nazista e promover períodos de "sucesso" da história alemã; no estado, a sigla também defende aulas de russo.
Em segurança e administração, a legenda fala em criar "patrulha cidadã" e ocupar postos-chave do serviço público. A proposta de patrulha para auxiliar a polícia gerou alerta de sindicatos pelo risco de "justiceiros"; integrantes do partido também mencionam ocupar cerca de 200 postos estratégicos e promover mudanças na agência de inteligência estadual.
Há medidas com impacto na mídia e na pandemia, como rescindir acordo com emissoras públicas e investigar a gestão da covid-19. O plano cita cancelar o acordo de radiodifusão com ARD e ZDF e criar uma comissão de investigação sobre a condução da pandemia; especialistas ouvidos apontam obstáculos legais e prazos para mudanças como a da radiodifusão.
*Com informações de reportagens da DW publicadas em 05/09/2026 e 11/07/2026.
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