O Ministério Público de São Paulo, por meio de promotores de Justiça do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), ofereceu uma nova denúncia criminal contra dois empresários acusados de chefiar uma rede de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica no setor de combustíveis.
Os principais alvos da ação penal são Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, ambos atualmente considerados foragidos da Justiça. Em nota, a defesa deles nega o envolvimento nos crimes.
O que aconteceu
A acusação é decorrente das investigações da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025. A investigação aponta que o grupo usava empresas de fachada, fintechs e fundos para ocultar patrimônio.
Promotores denunciaram a engrenagem utilizada para ocultar e blindar o dinheiro de fraudes fiscais bilionárias. O foco central da nova denúncia do MP-SP é a aquisição fraudulenta de dois terrenos em Catanduva (SP), avaliados em R$ 3,9 milhões, para abrigar a sede administrativa do recém-formado Grupo Itajobi, um conglomerado de usinas sucroalcooleiras do grupo.
Investigação mostra que foram lavados R$ 4 milhões em sete minutos. Segundo a denúncia, para comprar as propriedades sem levantar suspeitas das autoridades, os acusados criaram um sofisticado circuito financeiro. O dinheiro utilizado na transação partiu da distribuidora Aster Petróleo Ltda. em 4 de outubro de 2023, às 13h14, por meio de uma "conta gráfica" oculta em uma fintech de pagamento (conta bolsão).
Dinheiro passou por cinco contas distintas em apenas sete minutos até chegar ao vendedor. De acordo com o Gaeco, a velocidade e a coordenação exata das transferências deixam claro que todas as contas eram controladas de forma centralizada pelo mesmo operador, sem qualquer justificativa econômica que não fosse o distanciamento dos líderes criminosos do dinheiro ilícito.
Contratação de laranjas para quadro societário
A denúncia aponta que um advogado tributarista era o principal arquiteto do esquema. Ele teria utilizado sua assessoria jurídica e sua própria gestora de fundos para erguer três camadas de proteção patrimonial sobre os imóveis adquiridos.
Sede faraônica e contratação de laranjas. Apesar de o patrimônio estar encapsulado formalmente em nome do fundo de investimento e de suas subsidiárias, o Gaeco mostrou que o verdadeiro beneficiário da construção era a Usina Itajobi Ltda.. Foi a própria usina que solicitou e obteve o alvará de construção para as obras de um suntuoso escritório corporativo de três pavimentos, com mais de 6,7 mil m² de área construída em um terreno unificado de 10 mil m².
Para executar os trabalhos, foi contratada a Conceb Engenharia Ltda., de propriedade de Ali Mohamad Mourad, primo de Mohamad Hussein. A sede da construtora operava no mesmo endereço de várias outras empresas do grupo no Edifício K1, em Santana, na capital paulista.
A investigação detalhou ainda que a rede recrutava pessoas para figurar de forma fraudulenta em seus quadros societários. É o caso de uma moradora do interior de Sergipe cooptada para assinar como proprietária formal da SM Serviços Empresariais, que movimentou bilhões de reais, em troca de uma remuneração mensal de apenas R$ 1.200.
Engrenagem financeira usada para ocultar o dinheiro das fraudes teria sonegado mais de R$ 1 bilhão em ICMS. O MP diz que, sob a liderança de Beto Louco e Primo, o grupo utilizava a sonegação sistemática do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços em São Paulo como seu principal modelo de negócios.
O MP paulista pediu à Justiça a perda dos valores atrelados aos crimes. São listados na ação os dois terrenos adquiridos em Catanduva, a obra civil da sede administrativa do Grupo Itajobi e os acréscimos patrimoniais obtidos de forma indevida por uma das gestoras, identificados no montante de R$ 291.042,78.
Infiltração do PCC no setor de combustíveis
Beto Louco e mais 15 já haviam sido denunciados sob acusação de desvio de metanol para adulterar combustíveis. No dia 26 de agosto deste ano, a Promotoria denunciou 16 pessoas, incluindo Beto Louco, por envolvimento no esquema de desvio de metanol para adulteração de combustíveis, falsidades documentais, fraudes contra o consumo, crimes fiscais e conexão com outras organizações independentes.
O MP-SP apontou que os denunciados integraram, promoveram e financiaram a organização criminosa. As irregularidades foram identificadas em diversas etapas do processo de produção e distribuição de combustíveis. As transações financeiras do grupo transitavam por fintechs controladas pelo crime organizado, cujo portfólio de clientes é formado majoritariamente por empresas do setor.
As fintechs operavam com contabilidade paralela. De acordo com os responsáveis pela investigação, a escolha por uma instituição de pagamento - em vez de bancos tradicionais - visava a dificultar o rastreamento dos recursos. As fintechs operavam com contabilidade paralela, permitindo transferências entre empresas e pessoas físicas sem que os beneficiários finais fossem identificados.
Como as fintechs ajudaram a ocultar o rastro do dinheiro
As fintechs desempenharam um papel crucial para a organização criminosa. Elas são descritas na denúncia como um verdadeiro "paraíso fiscal onshore" no sistema financeiro nacional brasileiro. As empresas serviram como uma camada altamente eficaz de ocultação e blindagem financeira, distanciando os líderes dos recursos ilícitos
Anonimato no sistema financeiro nacional. A denúncia explica que, para qualquer observador externo — sejam bancos tradicionais, órgãos fiscalizadores ou o Banco Central —, o titular formal que enviava ou recebia os recursos era sempre a própria fintech, ocultando a identidade das empresas de fachada e dos líderes criminosos.
Blindagem contra rastreadores e bloqueios. Como o vínculo direto entre o dinheiro e o CPF/CNPJ do usuário final não aparece de forma clara no sistema financeiro convencional, a localização do patrimônio e a execução de bloqueios judiciais imediatos tornavam-se quase impossíveis. A rastreabilidade dependia integralmente de obter as quebras de sigilo dos registros privados (contas gráficas) internos da fintech.
Esse esquema permitiu que o grupo realizasse transações extremamente ágeis por meio de empresas de fachada. Um exemplo prático foi o fluxo de compra da sede administrativa em Catanduva, no qual R$ 4 milhões passaram por cinco contas de empresas e testas de ferro diferentes em um intervalo de apenas sete minutos, trafegando ocultos sob as contas bolsões de uma fintech até alcançar os vendedores.
O que dizem as defesas
A defesa de Mohamad Hussein afirma que a denúncia é especulativa. "Repete todo o estratagema que a Operação Carbono Oculto vem desenvolvendo desde que foi deflagrada, que é a estratégia da especulação sobre fatos não provados e que são inseridos dentro de uma narrativa desconexa da realidade", diz nota enviada ao UOL.
Ainda segundo a defesa, não é possível, a partir da denúncia, extrair qual é o fato que está sendo objeto da acusação. "É uma denúncia de 300 páginas, da qual nem sequer é possível apontar qual é o crime antecedente que seria objeto de lavagem. Ora a denúncia fala de contexto, ora ela fala de outros processos em curso, de operações investigatórias que vieram antes, para no fim repetir aquela narrativa especulativa: de que há um grande processo de lavagem sem explicar qual é o dinheiro que está sendo lavado, proveniente de onde e de que maneira se dá a alegada lavagem."
O advogado de Roberto Lemos declarou que provará, no curso do processo, a improcedência da denúncia ofertada. "Demonstrando, outrossim, a nulidade do feito que tramita em juízo estadual, o que à toda evidência contraria os termos legais."
A Altinvest disse que nenhuma ilegalidade foi praticada por seus representantes. A companhia afirmou ainda que todos os atos relacionados às suas atividades foram realizados dentro das normas aplicáveis. "A existência de uma denúncia não representa condenação nem reconhecimento de responsabilidade. A Altinvest afirma que continuará colaborando com as autoridades e que confia no regular andamento do processo e espera que todos os fatos sejam devidamente esclarecidos no curso da instrução", diz comunicado.
A companhia tomou conhecimento da denúncia oferecida pelo Ministério Público, mas seus representantes não foram ouvidos previamente sobre todos os fatos; parte dos elementos da investigação permanece sob sigilo, em razão da existência de diligências ainda em andamento. Os próprios autos registram que determinados apensos permanecem submetidos a sigilo absoluto e que o acesso da defesa é limitado enquanto perdurarem diligências investigativas. Diante disso, a companhia, em respeito ao rito processual e às instituições, apresentará oportunamente ao Poder Judiciário todos os esclarecimentos e argumentos necessários, exercendo plenamente seu direito de defesa.Altinvest, em nota
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