Nas minhas sessões de mentoria com CEOs, um relato tem aparecido com frequência cada vez maior. É a história do jovem brilhante na equipe, inteligente, criativo, cheio de energia, que no entanto parece desligar quando o projeto exige foco por mais de algumas semanas.
O padrão é quase sempre o mesmo. A gente vê um talento enorme, uma entrega brilhante em tarefas curtas, mas uma desconexão total quando o jogo vira maratona.
Recentemente, o neurocientista Jared Cooney Horvath apresentou ao Senado americano dados preocupantes sobre o desempenho cognitivo das novas gerações. Depois de décadas de avanço nos testes de inteligência, o chamado Efeito Flynn perdeu força e chegou a se inverter em alguns países.
E talvez a explicação não esteja na falta de inteligência. Esteja no ambiente em que treinamos o cérebro deles.
Pesquisas recentes já encontraram, entre jovens com dependência de vídeos curtos, diferenças em regiões cerebrais relacionadas à recompensa e ao controle cognitivo. Ainda não podemos dizer que uma coisa causou a outra. Mas é difícil ignorar o sinal.
Não é burrice. É arquitetura.
Em termos práticos, leitura profunda, foco prolongado e a capacidade de pensar sozinho passaram a ser tarefas que o cérebro trata como desnecessariamente difíceis.
E tem um detalhe que me chamou especialmente a atenção: o tédio.
A geração anterior lia livros e tinha tédio. E o tédio, hoje sabemos, também pode abrir espaço para reflexão, planejamento e criatividade. A Geração Z nunca fica entediada. O algoritmo nunca deixa. Cada segundo é preenchido com um estímulo novo.
Quando eu comecei minha carreira, o tédio fazia parte. Esperar a vez, observar alguém mais experiente trabalhar, participar de reuniões longas sem entender metade do que estava sendo discutido. Ficar olhando o movimento da loja ou a dinâmica da reunião sem a válvula de escape do bolso. O tédio era obrigatório porque o celular simplesmente não existia. Era chato. Mas era ali que eu aprendia a ter paciência, a escutar antes de falar, a entender que nem tudo se resolve rápido.
Hoje, o jovem que chega numa empresa já viveu anos num ambiente onde cada segundo oferece uma recompensa. Um like, uma notificação, um vídeo novo. O cérebro dele foi treinado para isso. E de repente alguém pede para ele liderar um projeto que vai durar seis meses, com reuniões semanais, sem resultado visível até o terceiro mês.
Não é que ele não queira. É que o cérebro dele foi moldado para outra velocidade.
E aqui está o problema para as empresas. Liderar exige exatamente o que o scroll pode ter comprometido. Foco prolongado. Paciência com processos que não dão resultado imediato. Capacidade de sustentar o desconforto de não saber a resposta. Tolerância ao tédio de acompanhar uma Equipe dia após dia, semana após semana, sem aplausos.
Ninguém ensinou essa geração a ficar parada. Ensinaram a scrollar.
Não faz sentido colocar a culpa no jovem. Nós construímos esse ambiente. Mas agora cabe a todos encontrar o caminho de volta. O jovem precisa reconhecer que foco é uma habilidade que se treina, não um talento que se tem ou não. E as empresas precisam entender que formar essa geração para a liderança vai exigir mais paciência, mais acompanhamento e mais clareza sobre por que o esforço de longo prazo vale a pena. A boa notícia é que o cérebro é plástico. A reversão é possível. Mas exige substituir o hábito, não só reduzir o tempo de tela.
Na sua empresa, vocês estão preparando essa geração para liderar? Ou estão apenas esperando que eles se adaptem sozinhos?
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
Deixe seu comentário
O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.