Na semana passada, palestrei no Congresso da Andav, o maior evento do setor de distribuição de insumos agrícolas do país. Antes de eu subir ao palco, assisti a uma apresentação dos bancos sobre o aumento das recuperações judiciais no agro. Os números eram graves. O tom na plateia era de preocupação real.
No intervalo, um amigo que atua no setor financeiro me puxou de lado e disse: "Paulo, o volume de recuperações judiciais está crescendo de um jeito que a gente não via há muito tempo. E não é só no agro."
Dias depois, a Casas Bahia pediu recuperação judicial. Dívida de mais de 17 bilhões de reais. Quase 300 lojas fechadas. Na véspera, a Marabraz havia feito o mesmo, com 140 milhões em dívidas.
Mas a lista não começa nem termina aí.
Tok&Stok entrou em recuperação judicial. Grupo Petrópolis, dono da Itaipava, também. Estrela de Brinquedos, Polishop, Bombril, Casa do Pão de Queijo, Agrogalaxy. E não são apenas recuperações judiciais. O Pão de Açúcar está em recuperação extrajudicial, renegociando bilhões. A Raízen também passou por recuperação extrajudicial. O grupo controlador do Habib's está em mediação com credores tentando evitar uma recuperação judicial. Os instrumentos mudam, mas o sinal é parecido: empresas de setores muito diferentes estão tentando reorganizar estruturas de capital que ficaram pesadas demais para o ambiente atual.
O Brasil encerrou o primeiro semestre de 2026 com mais de 6.300 empresas em recuperação judicial, segundo o Monitor RGF-Bizdoc. Um patamar recorde. No último trimestre de 2025, as dívidas declaradas por empresas que entraram em recuperação judicial somaram R$ 40 bilhões. No trimestre anterior, eram R$ 16 bilhões. O volume mais que dobrou, embora parte relevante desse salto esteja concentrada em um único grande caso. No agro, o número de empresas em recuperação cresceu 66% em um ano.
E do outro lado do balcão, o consumidor está na mesma situação. Segundo a Serasa, 83,5 milhões de brasileiros estão inadimplentes. Mais da metade da população adulta. 80% das famílias têm algum tipo de dívida. O valor total em atraso passa de R$ 574 bilhões.
Empresa endividada de um lado. Consumidor endividado do outro. E no meio, juros que continuam muito altos. Mesmo após os cortes recentes, a Selic está em 14% ao ano.
Não é preciso ser economista para entender a mecânica. Quando o custo do dinheiro é esse, a empresa que tomou crédito para crescer não consegue pagar. A que precisa renegociar não encontra condições. A que ainda está saudável adia investimentos, corta pessoas e espera. E o consumidor que deveria estar comprando está tentando sobreviver.
Também existe uma conta pública que precisa entrar nessa conversa. Em 12 meses até junho, o setor público acumulou déficit primário de R$ 157 bilhões. No mesmo período, os juros nominais passaram de R$ 1,1 trilhão. Não importa quem esteja no governo: uma trajetória fiscal que não inspira confiança torna mais difícil reduzir juros de forma sustentável.
Eu não sou ingênuo: sei que nem toda recuperação judicial é culpa dos juros. Tem empresa que cresceu sem disciplina, que se alavancou demais, que tomou decisões ruins. Gestão ruim derruba negócio com qualquer Selic.
Mas quando a lista inclui varejo, agro, indústria, alimentação, energia e petroquímica ao mesmo tempo, fica difícil tratar cada caso apenas como um problema individual. Há algo maior acontecendo no ambiente econômico.
Ao longo de mais de 30 anos liderando operações, passei por vários ciclos econômicos. Vi empresas quebrarem por má gestão e vi empresas saudáveis serem sufocadas por um ambiente que não perdoa. O que está acontecendo agora tem elementos do segundo caso. Empresas que, além dos próprios desafios, precisam enfrentar um ambiente financeiro que tornou muito mais difícil carregar suas estruturas de capital.
Os indicadores positivos da economia existem. Mas eles não anulam esses sinais de estresse financeiro. Quando recuperações judiciais batem recordes, 83,5 milhões de brasileiros estão inadimplentes e o custo do capital permanece em dois dígitos, não dá para tratar tudo isso como ruído.
A pergunta não é se o pior já passou. A pergunta é se estamos olhando para esses números com a seriedade que eles merecem.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.