Juros altos estão na cabeça de todo mundo e na boca de um grande número de economistas. O custo do dinheiro muito elevado e por tempo prolongado virou uma espécie de "Geni" da economia. É dos juros altos a culpa de (quase) todos os problemas.
O comércio varejista tradicional entra em crise? O problema são os juros altos. O endividamento das pessoas bate recordes e, em consequência, a inadimplência também alcança percentuais inéditos? Resultado dos juros nas nuvens.
A um mês e meio da eleição presidencial, as razões para a existência e a resistência de juros tão altos e seus impactos negativos na economia galgaram todos os holofotes. Quem achar que tem um tanto de jogo político-eleitoral nesse ambiente talvez não esteja inventando coisas.
A expressão "juros altos", na visão econômica mais convencional e difundida nas diversas mídias, é uma senha para uma plataforma de ajuste fiscal, concentrado em cortes de gastos públicos. É um roteiro simples e que faz sentido quando se olha apenas para a superfície das relações na economia.
Juros altos importam, mas...
Não se pode negar que juros altos e por período prolongado — os juros básicos, no Brasil, estão acima de dois dígitos há mais de quatro anos e acima de 15% há mais de um ano — são fatores relevantes dos problemas que o varejo tradicional, acostumado a operar com o crediário, e outros segmentos vêm enfrentando.
Também não há dúvida de que juros altos são parte importante do endividamento e da inadimplência recordes do momento. Assim como fazem parte dos elementos que operam para o aumento da dívida pública.
Mas juros altos são a regra na economia brasileira pelo menos desde a segunda metade do século passado. Com juros altos e tudo, o comércio varejista viveu momentos de grande expansão, enquanto as famílias não carregavam dívidas tão altas e tão difíceis de quitar.
Se é evidente o peso dos juros altos nos problemas atuais da economia, não menos notórias são também as mudanças estruturais que, nos últimos tempos, reviraram as características dos setores que agora sofrem com a persistência dos juros elevados.
... Causas são mais estruturais
Tanto a crise no varejo quanto o endividamento e a inadimplência recordes têm causas mais estruturais, com origem em mudanças radicais nos ambientes e nos modelos de negócio de setores do comércio e na área bancária.
Está diante dos olhos de qualquer um a transformação do modelo de negócios do varejo, a partir do uso de ferramentas digitais que propiciaram o surgimento de marketplaces — shopping centers virtuais, numa tradução bastante livre — e aceleraram o desenvolvimento de processos de logística e distribuição mais eficientes.
Um novo e já dominante modo de ir às compras, sobretudo em segmentos de bens duráveis — móveis, eletroeletrônicos domésticos, ferramentas, bens pessoais e uma vasta gama de etc. —, esmagou o modelo de grandes lojas físicas, espalhadas em pontos valorizados (e caros) das cidades, com muitos funcionários, amplos e variados estoques de produtos.
Diante de um computador ou celular, em qualquer lugar em que esteja, o consumidor tem hoje, via plataformas digitais, acesso a uma quase infinita variedade de mercadorias, marcas, preços e formas de pagamento, com entregas em domicílio cada vez mais rápidas e crescentemente gratuitas.
Não há como varejistas tradicionais competirem com esse novo formato de vendas, ocupado por concorrentes que apenas fazem a ponte entre comprador e vendedor, organizando pagamentos e distribuição, muitas vezes também executada por terceiros, sem obrigação de manter estoques centralizados.
A crise no varejo tem relação com o maior comprometimento da renda pessoal com dívidas e a impossibilidade de renová-las pelo atraso na quitação das anteriores. O ambiente de endividamento e inadimplência recordes é um claro fator de restrição ao consumo — e do consumo por meio do crediário —, do qual depende o varejo.
Accountability frouxa
Esta outra crise, a do endividamento e da inadimplência, decorre igualmente de mudanças estruturais, além, é óbvio, dos juros altos. Aqui o problema tem origem no que se poderia chamar de accountability frouxa. Accountability designa as responsabilidades de credores e tomadores de crédito na concessão de crédito, de um lado, e na capacidade de quitá-la, de outro.
O setor bancário brasileiro foi outro que passou por uma ampla reformulação, ao longo dos últimos anos, com a abertura de centenas de fintechs e empresas de intermediação de pagamentos. Os novos ingressantes no mercado mudaram o modo como o crédito passou a ser oferecido e tomado.
Bancos grandes e tradicionais migraram há tempos para um modelo de "supermercado de serviços financeiros", o que colaborou e facilitou a fidelização de clientes. Já os novos ingressantes tiveram de abrir espaços no mercado para ganhar clientes e ganhar escala.
O caminho escolhido foi o da digitalização e da desburocratização de cadastros, acompanhado da oferta de crédito fácil, sem maiores preocupações com limites de endividamento.
Não é coincidência que cartão de crédito, cheque especial e crédito ao consumidor tenham disparado como modalidades mais contratadas, enquanto os empréstimos consignados, garantidos pela renda do tomador, se disseminaram. São as modalidades mais caras e fáceis de contratar — em muitos casos, a contratação é automática.
Em concomitância com o advento do Pix, ocorreu um movimento intenso e veloz de bancarização da população. Nos últimos dez anos, a proporção de brasileiros com acesso a bancos pulou de menos de 70% para mais de 95% da população.
A bancarização geral promoveu, entre outros, a disseminação do cartão de crédito, com o qual fazer uma dívida se tornou uma ação simples e rápida, sem necessidade de aval do banco, para qualquer um.
Consignado sem controle
Mais recentemente, difundiu-se a modalidade de crédito consignado, no qual o cliente toma um financiamento que é pago, antecipadamente, por parcela de sua renda do trabalho ou outra garantida.
Nos últimos 12 meses, foram emprestados quase R$ 120 bilhões em consignados privados para cerca de 10 milhões de clientes, numa média superior a R$ 10 mil por empréstimo.
A explosão do consignado trouxe uma dificuldade adicional para a eficácia da política de juros — e para as restrições ao crédito em geral, porque sua operação reduz enormemente o risco do credor, qualquer que seja a taxa de juros básica ou de mercado ex-consignado. Estatísticas mostram que a modalidade consignada cresceu, desde que se disseminou, dez vezes mais rápido do que o crédito comum.
Muito mais do que juros altos, em resumo, uma accountability frouxa está na raiz do superendividamento e da inadimplência que o acompanha. Accountability é a expressão em inglês que designa a atuação responsável de credores e tomadores de crédito no mercado financeiro.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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