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UOL há 72 d • Qui, 20 Ago 2026 04:00:00 -0300

Musical narra como Gilberto Gil confrontou horror da repressão com beleza da arte

Gilberto Gil era um homem desterrado nos primeiros anos da década de 1970. Após ser preso pela ditadura militar em 1968, o cantor se exilou em Londres com Caetano Veloso, outro expoente da tropicália detido no mesmo período. Na capital inglesa, o músico entrou em contato com uma cena artística efervescente.

O músico emergiu renovado desse caldo cultural. Em Londres, comprou a sua primeira guitarra, uma Gibson 335, instrumento com o qual aprofundou a mistura do rock anglo-saxão com os acordes da música brasileira. Como canta em "Back in Bahia", ir embora foi necessário para que ele pudesse voltar. Não à toa, o musical "Gil – Andar com Fé" usa o exílio como ponto de partida para contar as origens de um dos nomes mais luminosos da música brasileira.

Dirigido por Miguel Falabella e estrelado por Gui Ventura, o espetáculo estreia nesta quinta-feira, dia 20, no Teatro Santander, na capital paulista, para celebrar não apenas um homem, mas o espírito de um tempo.

"Conceitualmente, a gente precisava homenagear uma geração, um movimento no final dos anos 1960 que veio com o pé na porta e nos salvou de uma caretice absoluta, da qual não haveria saída", afirma Falabella. "Não é à toa que eles foram massacrados."

A homenagem a essa geração pode ser sentida pela presença em cena dos intérpretes de artistas como Gal Costa, Caetano Veloso e Maria Bethânia. Ao lado deles, Gil formou o grupo Doces Bárbaros em 1976.

A cenografia faz referência às vanguardas artísticas que varreram o Brasil a partir dos anos 1950. Há rampas instaladas sobre o palco, elemento cênico que remete à sinuosidade das esculturas de Lygia Clark, e bandeirinhas, das pinturas de Alfredo Volpi. As bandeirinhas ambientam a infância de Gil em Ituaçu, cidade no interior da Bahia, onde o artista deu os primeiros passos na música. Foi lá que ele aprendeu a tocar acordeão, aos 10 anos, influenciado pelo baião de Luiz Gonzaga.

Formado em medicina, o pai do artista deixou Salvador com a família pela dificuldade de exercer o ofício na capital. Na peça, o personagem que vive o pai de Gil atribui os entraves ao racismo.

A questão racial, aliás, reaparece quando a produção mostra uma viagem de Gil para Lagos, na Nigéria, em 1977. À época, ele entrou em contato com o afrobeat de Fela Kuti.

Essa incursão inspirou "Refavela", disco que incorporou ritmos como reggae e juju music. "Aqui e Agora" e "Ilê Ayê" são algumas das faixas mais conhecidas desse trabalho.

O espetáculo retrata esse mergulho nas culturas negras por meio de um número musical que une canções como "Haiti", "Ladeira da Preguiça", "Babá Alapalá" e "Punk da Periferia".

"Esse segmento é muito bonito porque ele canta esses novos ritmos, essas novas sonoridades", diz Falabella, para quem o artista faz parte de uma geração que revitalizou a arte brasileira. "Por mais que tenham encontrado na caretice uma oposição, eles foram um vento novo que varreu tudo."

A influência dos povos africanos também pode ser sentida na estrutura narrativa do musical, produção que se desenrola de forma não linear. É uma prática que segue a interpretação de mundo da cultura iorubá, povo para quem o tempo não é uma linha reta, mas uma espiral que entremeia passado, presente e futuro.

A jornada de Gil é conduzida pelo Tempo-Rei. O personagem mítico é vivido por Guga Barbosa e foi inspirado em uma música do artista. Ao longo da narrativa, é como se essa entidade fosse um cicerone que guia o público pela biografia do músico.

É uma trajetória em que Gil usou a sutileza da poesia para enfrentar a repressão da ditadura. Isso pode ser sentido em "Cálice", parceria com Chico Buarque, que tematiza a censura por meio de jogos de linguagem.

Em 1973, os dois tentaram cantar a música durante um evento em São Paulo. Os artistas, no entanto, tiveram os microfones desligados por censores do regime militar, incidente retratado no musical.

"Para nós, artistas, é uma lição de como devemos estar sempre representando o país e o tempo por meio da arte", diz Newton Moreno, dramaturgo que assina o texto da peça.

Ele decidiu começar a dramaturgia pelo exílio como um alerta para os perigos do autoritarismo, fenômeno que ganha força em diversos países mundo afora.

O dramaturgo também incluiu essa passagem para retratar o artista em um momento limítrofe. "Eu queria pegar um lugar de crise do Gil. E me pareceu que a crise ali era familiar, geográfica e política."

De certa forma, os momentos de vulnerabilidade ajudam a revelar o homem que existe por trás do ícone. Esse foi um dos objetivos de Gui Ventura ao interpretar o artista.

Na hora de construir o personagem, ele se voltou às religiões de matriz africana, para as quais os deuses não são perfeitos e infalíveis. "Quando eu endeuso o Gil, é como uma divindade próxima do humano. Uma divindade que erra, que tem luz e sombra."

Embora guarde semelhanças físicas com o artista, Ventura evitou uma performance baseada na imitação. "Fiquei pensando em como compor esse personagem sem ir para um lugar muito caricato ou burlesco", afirma o ator. "A tentativa de me tornar totalmente o Gil poderia não ser a mais inteligente."

Outro momento que aproxima o artista do público acontece quando o musical faz referência ao término de sua relação com Sandra Gadelha, com quem ele foi casado por pouco mais de uma década. O fim do casamento inspirou "Drão", música que fala sobre a permanência do afeto mesmo após o fim do casamento.

Ventura diz se emocionar ao apresentar essa faixa por considerar que a canção expande o conceito de amor. "Ele expressa ali não o fim, mas a transformação do amor. É um amor que não é mesquinho."

Para o ator, Gil também expandiu o conceito de musicalidade. "Ele tirou a nossa música de um lugar e pôs num lugar de infinitas possibilidades. Isso se mantém até hoje. Gostando ou não da obra de Gil, nós somos filhos dessa atitude."

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