O papel do artista é iluminar pensamentos, destravar raciocínios e abrir porta para a percepção" diz Selton Mello, no Festival de Gramado. O ator foi homenageado com o Kikito de cristal.
Mello conversou com jornalistas logo após prensar cristal em brasa para dar forma ao Kikito que será dado a Maria Fernanda Cândido na sexta-feira (21). Ela também é homenageada pelo festival com o mesmo prêmio.
No ano passado, Mello fez "Ainda Estou Aqui" ao lado de Fernanda Torres, primeiro filme brasileiro a vencer o Oscar. Ao ser coroado em Gramado, porém, ele relembrou mais de seu filme "O Palhaço", que protagonizou e dirigiu, considerado seu trabalho mais pessoal até hoje.
No longa, Mello dá vida a Benjamin, um palhaço de circo em crise existencial. Ele não sabe bem qual é seu papel no mundo, enquanto artista e pessoa.
Hoje, 15 anos depois de "O Palhaço" abrir o Festival de Gramado, Mello parece estar em paz com a sua trajetória como artista. "Para mim, atuar é muito natural. E acho que essa naturalidade vem da infância, do menino ator. Atuar é um ato simples, é fingir. O ator é o melhor fingidor em cena", disse. Ele contou que, aos seis anos, já sabia qual profissão queria seguir e pediu aos pais que o levassem a testes de elenco para a televisão.
Ele falou também sobre sua estreia em um filme hollywoodiano, "Anaconda", em dezembro do ano passado. Segundo ele, o interesse em torno de produções e artistas brasileiros aumentou nos Estados Unidos, após "Ainda Estou Aqui". "Eles estão abrindo espaço. Existe um respeito muito grande pelo que a gente faz."
No Festival de Cannes, em maio, Mello disse a esse jornal que o filme de Salles "mudou tudo" em sua carreira, abrindo as portas para trabalhos fora do Brasil.
Mello está em "La Perra", da chilena Dominga Sotomayor, que encerra o festival. O ator anunciou, ainda, que seu próximo papel será em um filme argentino.
O ator subiu ao palco do Palácio dos Festivais, na noite desta quarta-feira (19), para receber o Kikito de Cristal. Mello se emocionou ao dizer que esta foi a primeira vez em que recebeu um prêmio sem a presença de seus pais, Dalton e Selva, na plateia. A mãe morreu em 2024 e o pai, neste ano.
"Cinema guarda memórias", disse ele, ao lembrar que a mãe morreu por complicações do Alzheimer.
"Ganhar um premio não é pessoal, é continuidade. Quis o destino que eu ganhasse no dia seguinte que partiram duas gigantes, Laura Cardoso e Glória Menezes", disse ele, ainda.
Mello citou atores, atrizes, diretores e produtores que admira, entre eles Paulo José e Luiz Carlos Barreto, e disse que lembrar desses profissionais é, para ele, um ato político. "Eu acho uma profissão cruel, que sempre privilegia o novo."
O ator disse que, nos anos 1990, quando veio a Gramado pela primeira vez, fazia televisão e desejava trabalhar em filmes. "Minha turma é do cinema. É onde eu gosto de estar", disse.
Mello abriu o Festival de Gramado em 2011, com seu filme "O Palhaço", que considera o seu trabalho mais pessoal até hoje.
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