Em 20 de julho começaram as convenções partidárias. Em 16 de agosto começa a propaganda eleitoral oficial. Em 4 de outubro, o Brasil vota. Se houver segundo turno, volta às urnas em 25 de outubro.
No dia 26, chega o silêncio. E, muitas vezes, ele dura pelos quatro anos seguintes.
É um calendário político que funciona ao avesso do ideal. As obras se aceleram, as cidades viram verdadeiros canteiros e projetos sociais que aguardavam aprovação há anos, de repente, recebem apadrinhamento.
Estamos em um ano eleitoral intenso, com disputas para presidente, governadores, dois senadores por estado, deputados federais e estaduais. São mais de 158 milhões de eleitores. Essa dimensão atrai quem quer capitalizar sobre o voto e afasta quem poderia utilizá-lo para transformar a realidade.
Há uma proposta em tramitação no Senado que pretende mudar parte desse ciclo. A PEC 12/2022, aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça em maio de 2025, prevê eleições unificadas a partir de 2034, mandatos de cinco anos e o fim da reeleição para presidente, governadores e prefeitos.
O senador Otto Alencar resumiu o problema: "Discute-se mais eleição do que projetos benéficos à solução das dificuldades sociais do povo brasileiro."
A proposta tem críticos legítimos, mas o diagnóstico está certo.
O problema nunca foi a política, mas sim o que alguns fazem com ela.
Existe um tipo de presença no território que só aparece entre agosto e outubro. Chega com sorriso, abraço e promessas bem articuladas sobre saúde, educação e emprego. Uma proximidade improvável para quem acumula quatro anos de ausência.
Depois do dia 4 de outubro, esse candidato passa a ter compromissos em outro lugar. Qualquer lugar que não seja aqui.
Mas é importante dizer que também existem os outros. Políticos que chegaram ao mandato pelo mesmo caminho que o território percorreu para existir. Pessoas que entendem que legislar é trabalho e sabem como é duro depender de um serviço público que não funciona, de um crédito que não é aprovado ou de um endereço que o sistema não reconhece.
Cabe a cada cidadão identificar quem pode utilizar o poder da representação para interferir, de fato, na maneira como a política é construída e executada.
O voto importa. Por alguns segundos, ele nivela o morador da cobertura e o morador do barraco. Não deveria ser normal desperdiçá-lo com quem apenas o coleciona.
A ressaca eleitoral tem cheiro conhecido: obra parada, projeto que perdeu o padrinho, reunião que não acontece mais.
Como diferenciar quem veio para ficar de quem veio apenas para colher?
Não há fórmula, mas há pistas.
Quem construiu presença antes do período eleitoral não precisa inventar proximidade em agosto, cercado de câmeras e marqueteiros. Não precisa repetir a foto comendo pastel na feira, pegando criança no colo ou encenando tantos outros clichês do cardápio do marketing político.
Quem responde mensagem em fevereiro não precisa fazer live em setembro.
Quem tem histórico de mandato, atuação, votação e frequência parlamentar não precisa apresentar uma promessa nova a cada eleição. O registro permanece.
O território já aprendeu a verificar isso.
Daqui a vinte dias, começa a propaganda oficial. Os jingles vão tomar as ruas. A disputa chegará aos grupos de WhatsApp, ao feed e às conversas no ônibus.
A pergunta não é apenas quem vai ganhar.
A pergunta é, no primeiro dia depois da eleição, quem ainda vai estar aqui?
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
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