Os presidentes Lula e Javier Milei, em fotomontagem (AFP/AFP)
Publicado em 27 de julho de 2026 às 19h03.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou de forma irônica nesta segunda-feira as declarações e a visita do presidente da Argentina, Javier Milei, ao Brasil. Questionado sobre a participação do mandatário argentino em um evento político ao lado do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, Lula evitou aprofundar o tema e respondeu com sarcasmo enquanto aguardava a chegada do presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-Myung, para uma cerimônia no Itamaraty.
"Eu? Quem é esse cara?", afirmou o presidente brasileiro ao ser perguntado sobre Milei.
A declaração ocorre após a participação de Milei em uma convenção realizada no sábado, na qual o argentino voltou a direcionar críticas ao campo político de esquerda na América Latina. Durante seu discurso, o presidente relacionou os desafios econômicos enfrentados pela Argentina ao socialismo e atacou o Foro de São Paulo, organização criada em 1990 por lideranças da esquerda latino-americana.
Na ocasião, Milei afirmou que o Brasil ainda não teria vivenciado os efeitos mais profundos desse modelo político e defendeu uma mudança de rumo. Dirigindo-se diretamente a Flávio Bolsonaro, declarou confiar no senador para impedir o avanço do socialismo no país.
Além das críticas ideológicas, o presidente argentino utilizou termos ofensivos para se referir a autoridades brasileiras. Milei chamou Lula de “presidiário” e atacou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, após a negativa de um pedido de visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A reação do governo brasileiro veio ainda no domingo. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, recebeu em Brasília o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para manifestar formalmente o descontentamento do Palácio do Planalto com as declarações feitas pelo chefe de Estado argentino.
Durante a reunião, o chanceler comunicou a insatisfação do governo em relação aos ataques direcionados ao presidente da República, às instituições brasileiras e ao ministro Alexandre de Moraes. O encontro ocorreu após o Itamaraty convocar oficialmente o representante diplomático argentino para prestar esclarecimentos sobre a conduta de Milei durante sua passagem pelo país.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores classificou o episódio como sem precedentes na relação bilateral e lamentou que um presidente estrangeiro tenha utilizado uma visita ao Brasil para atacar autoridades nacionais, instituições democráticas e o próprio povo brasileiro.
“O governo brasileiro considera especialmente lamentável que tais manifestações tenham partido do presidente de um país com o qual o Brasil mantém mais de dois séculos de relações diplomáticas, além de uma ampla parceria comercial e estratégica”, destacou o Itamaraty.
As declarações do presidente argentino também repercutiram dentro da equipe econômica do governo federal. O ministro da Fazenda em exercício, Dario Durigan, criticou duramente Milei durante entrevista à Rádio Jornal, classificando o mandatário argentino como “palhaço”.
Ao comentar a situação econômica do país vizinho, Durigan argumentou que os indicadores argentinos permanecem mais frágeis do que os brasileiros, citando níveis mais elevados de risco-país, inflação e endividamento público. Segundo ele, as críticas feitas ao Brasil não encontram respaldo nos resultados econômicos apresentados atualmente pelas duas nações.
"O palhaço do presidente da Argentina veio ao Brasil ontem e falou do Brasil quando o risco-país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito maior e a inflação também é mais alta", disse o ministro.
A manifestação de Lula sobre Milei ocorreu após uma reunião bilateral com o presidente sul-coreano Lee Jae-Myung. Durante o encontro, os dois líderes anunciaram um acordo de cooperação envolvendo minerais críticos, considerados fundamentais para setores estratégicos da economia global.
Segundo o governo sul-coreano, Brasil e Coreia do Sul trabalharão conjuntamente em iniciativas relacionadas a toda a cadeia de suprimentos desses recursos minerais, ampliando a colaboração em áreas ligadas à transição energética, produção de baterias, semicondutores e tecnologias avançadas.
O entendimento reforça a aproximação entre os dois países em um segmento considerado prioritário para o desenvolvimento industrial e para a competitividade em mercados de alta tecnologia nos próximos anos.
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