Milhares de brasileiros passaram a fazer fila para aplicar em negócios considerados incomuns até pouco tempo atrás para o público da Faria Lima. Na lista de alvos estão cooperativas do MST, uma empresa de aluguel social e a reforma de um edifício numa área degradada do centro histórico de São Paulo. Não se trata de caridade: a aposta é em retorno financeiro.
O fenômeno é uma evolução do chamado investimento de impacto, indústria financeira que nasceu quase como filantropia, impulsionada por famílias ricas interessadas em causas sociais e ambientais. É um mercado que movimenta bilhões no Brasil e, em geral, irriga fundos dedicados a financiar startups ou empresas com atuação no terceiro setor.
A diferença é que agora os investidores são pessoas físicas comuns. Eles podem fazer investimentos a partir de R$ 100 nesses projetos, via aplicações financeiras tradicionais, como os CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) e CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio). Uma solução simples que fez o segmento prosperar, popularizando o acesso no país aos investimentos de impacto social.
Quem viabilizou a solução foi o paulista João Paulo Pacífico, fundador da securitizadora Gaia Impacto. A grande sacada foi simplificar as operações de captação de recursos, aproveitando uma mudança regulatória da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) em 2022.
Desde o início, a ideia da Gaia, empresa criada por Pacífico, era engajar o pequeno investidor, mas as regras das ofertas públicas da CVM à época tornavam as operações demasiadamente caras. "A primeira operação deu um trabalho insano. O prospecto tinha mais de 700 páginas. Ficou inviável replicar", lembra.
Diante do impasse regulatório, a securitizadora teve de mirar no investidor profissional. Foi após a CVM regulamentar o crowdfunding, modelo de financiamento coletivo semelhante a uma "vaquinha virtual", em 2022, que Pacífico conseguiu se voltar aos pequenos investidores.
Com essa mudança, ele viabilizou "rodadas de investimentos" para financiar projetos sociais no varejo, usando aplicações financeiras tradicionais e reguladas. Ao resolver essa questão, atraiu milhares de pessoas que até querem investir com propósito, mas com segurança e sem abrir mão da rentabilidade.
Ao enquadrar emissões de produtos tradicionais, como CRA e CRI, no modelo de crowdfunding, a Gaia ampliou o acesso dos dois lados: levou investimentos de impacto ao público de varejo e abriu o mercado de dívida para negócios com atuação social.
De financista "raiz" a progressista
Após atuar por mais de uma década em operações de dívidas tradicionais para financiar o agronegócio e a construção de edifícios, ele decidiu criar a Gaia Impacto.
"Achava que o agronegócio era o motor do Brasil, que o agrotóxico era necessário. Quando percebi que, em vez de financiar shopping, podia financiar moradia popular, vi que era isso que eu queria fazer", afirma Pacífico.
Em 2022, Pacífico vendeu a carteira tradicional da Gaia para focar em negócios de impacto.
"Monto a operação com a rentabilidade adequada. Trocar retorno financeiro por impacto vale para os super-ricos. É sacanagem querer que a classe média abra mão de rentabilidade", diz.
Em seis anos, a Gaia estruturou mais de 15 operações de financiamento a negócios de impacto, somando R$ 180 milhões. Foram 8.000 aplicações, feitas por 4.200 CPFs —muitos deles fizeram mais de um aporte. Outras 9.600 pessoas ficaram na lista de espera.
Apesar da "fila" de investidores, Pacífico não tem a intenção de escalar o negócio. A Gaia faz apenas uma operação por mês para preservar o rigor na análise de risco e na qualidade dos projetos oferecidos aos investidores.
"Influencer" de investimento
A presença digital de Pacífico é um trunfo para superar o maior desafio do financiamento coletivo: o custo de chegar ao investidor. Os títulos são distribuídos em canais especializados, sem o alcance de plataformas como XP e BTG.
Pacífico já tinha presença na mídia e nas redes antes de fundar a Gaia. Ele soma mais de 300 mil seguidores no Instagram e 450 mil no LinkedIn, onde publica quase diariamente sobre temas diversos. Bets, Neymar, Xuxa, Banco Master, "Dark Horse": tudo vira assunto.
A estratégia tem se mostrado eficiente. A Gaia reúne um mailing com 18 mil investidores, que chegam à Gaia sobretudo pelo Instagram ou pelo canal de WhatsApp. É a eles que a empresa oferece soluções de investimento de impacto.
A primeira emissão de dívida para financiar uma cooperativa do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), em 2021, ganhou repercussão espontânea na imprensa e nas redes. A imagem controversa do movimento entre investidores conservadores ajudou a chamar atenção para o projeto.
A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) chegou a suspender temporariamente a oferta após uma entrevista de Pacífico, mas o movimento só ampliou o interesse no negócio. A emissão atraiu 1.515 investidores, deixou outros 5.500 na lista de espera e captou R$ 17,5 milhões.
"Muitos criticaram, mas as emissões para cooperativas do MST passaram incólumes pela crise que afetou o mercado de dívida do agronegócio. Todas as parcelas foram pagas em dia e quatro das nove operações já foram encerradas", explica Pacífico.
Negócios escalados com capital
Em julho, quase 500 pessoas investiram R$ 6,2 milhões em um CRI da Alpop, empresa de aluguel social que funciona como uma espécie de "Quinto Andar para a baixa renda".
A emissão foi concluída em meia hora, e o lote adicional se esgotou em menos de uma. Além de financiar o negócio, os investidores receberão retorno de 15% ao ano por três anos, acima da Selic e com isenção de Imposto de Renda.
Há tempos a Alpop tentava estruturar uma operação no mercado de capitais, mas, segundo o fundador Caio Belazzi, os custos dificultavam a viabilidade.
"O CRI da Gaia me custa 1,17% ao mês. O banco com a melhor condição me ofereceu acima de 2%. Se fosse fazer um FIDC [Fundo de Investimento em Direitos Creditórios], seria 2,5%", diz Belazzi.
Outro negócio financiado pela Gaia foi o escritório de arquitetura Sumaúma, que captou R$ 10 milhões em junho com mais de 600 investidores. Os recursos serão usados para concluir o retrofit do edifício Tebas, projeto de impacto social e ambiental no centro histórico de São Paulo.
Além do retorno de 15,1% em dois anos, o CRI Centro SP ajudará a revitalizar uma área degradada e recuperar a memória de Tebas. Arquiteto negro e ex-escravizado, ele projetou, no fim do século XVII, um chafariz que integrou o primeiro sistema público de abastecimento de água da cidade.
A próxima operação da Gaia será a quarta da cooperativa Coapar. O dinheiro captado será usado como capital de giro para a produção de uma nova fábrica de leite em pó, a primeira do estado de São Paulo. Com sede em Andradina, a Coapar agrega a produção de mil famílias, com uma média de 1,5 milhão de litros de leite por mês.
Investimento em troca de participação na empresa
Um estudo da Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande), publicado em 2023, calculou que o investimento de impacto no Brasil movimentou R$ 18,7 bilhões em 2021.
Consultorias de impacto como Sitawi, Din4mo e Trê também usam plataformas de financiamento coletivo para apoiar esses negócios. Em geral, focam em startups em estágio inicial, com captações menores —em torno de R$ 500 mil— em troca de participação na empresa ("equity"), sem remuneração definida ou prazo de saída.
Em dezembro do ano passado, a Gaia também entrou no mercado de investimento em "equity". As operações, feitas pela plataforma Altx, têm valor médio de R$ 6 milhões, carência de seis meses e prazo de até cinco anos.
Até agora, foram duas emissões, de R$ 4,5 milhões e R$ 8,3 milhões, para financiar o crescimento da Uma Penca, plataforma que ajuda microempreendedores a criar lojas virtuais, e a Chico Rei, marca de camisetas que deu origem ao negócio.
A empresa mantém uma unidade de produção na penitenciária de Juiz de Fora (MG), como parte de um programa de ressocialização, e fornece camisetas ao Greenpeace —ONG da qual Pacífico é conselheiro— e à própria Gaia.
Quem é Pacífico
Nascido em São Paulo, Pacífico cresceu nos Jardins, estudou no Colégio São Luís e se formou em engenharia de produção no Instituto Mauá. As visitas a fornos de fundição durante a faculdade não o entusiasmaram, e ele seguiu carreira no mercado financeiro.
Em 1999, entrou como estagiário na Rio Bravo, gestora fundada pelo ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco e pelo ex-Pactual Paulo Bilyk. Em 2007, saiu para trabalhar em bancos, com passagens pelo Standard Bank e pelo Banco Matone.
Na crise financeira de 2008, foi encarregado de demitir uma equipe inteira do Matone, experiência que abalou seu senso de justiça social. Decidiu ser "dono do próprio nariz" e fundou, em 2009, a Gaia Securitizadora.
Naquele tempo, achava que fazer a coisa certa era criar um ambiente de trabalho saudável, "que não fosse uma máquina de moer gente". Especializou-se em felicidade corporativa e escreveu livros sobre gestão e liderança com propósito.
Seu escritório, na Vila Olímpia, tinha tobogã e uma rede suspensa para a equipe relaxar. Metas cumpridas eram celebradas com viagens à Disney.
Pacífico chegou a apresentar um programa na Rádio Globo e a assinar uma coluna na revista Veja São Paulo. Também foi comentarista da Jovem Pan, em 2023, após a eleição do presidente Lula, época em que a emissora buscava um contraponto mais à esquerda.
Riqueza como ferramenta
Defensor da taxação dos mais ricos, foi o único brasileiro dentre os 250 signatários do manifesto "Orgulho de Pagar Mais" no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, em 2024.
Pacífico também abriu mão da ideia de ser dono do próprio negócio. Aderiu ao modelo de governança conhecido como steward ownership, inspirado na empresa americana de roupas esportivas Patagonia.
Nesse modelo, as ações são transferidas para um fundo patrimonial que tem por missão perenizar o negócio e o seu propósito. Todo lucro é reinvestido na própria empresa ou em suas causas.
O Grupo Gaia reúne hoje a Gaia Impacto, sucessora da antiga Gaia Securitizadora; o Gaia Legado, que administra fundos patrimoniais; e a ONG Gaia+, fundada por Pacífico e seu irmão Eduardo, que atende crianças em situação de vulnerabilidade no contraturno escolar.
A Gaia Legado administra ainda uma propriedade rural em Minas Gerais avaliada em R$ 40 milhões e doada no ano passado por Gislaine Rosa, uma fazendeira que conheceu Pacífico ao assistir a seus vídeos no Instagram.
Sem herdeiros e com diagnóstico de câncer terminal, ela confiou a Pacífico o desejo de transformar a fazenda em uma área de agricultura familiar e sistema agroflorestal. Hoje, 30 famílias vivem no local, e o plano é chegar a cem.
Apesar da defesa da taxação dos mais ricos, Pacífico não faz voto de pobreza. Aos 47 anos, pai de duas meninas, diz viver "confortavelmente". Questiona, contudo, a ideia de acumulação de riqueza e de crescimento ilimitado.
"O objetivo da Gaia não é dominar o mundo. Quero fazer boas operações. Umas dez por ano, não mais do que isso. E a gente para nas férias de julho e em janeiro."
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.
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