"Ao invés de duas equipes, uma bola e um campo pequeno, nós temos um campo enorme. E 22 bolas, cada uma delas com sua própria história". É assim que o diretor de transmissão da TV, Dean Locke, explica a complexidade de entender qual é a imagem que o telespectador precisa ver para entender o que está acontecendo em uma corrida.
A Fórmula 1 se orgulha de servir de modelo para outros grandes eventos esportivos, recebendo profissionais em suas estruturas na central de operações em Biggin Hill, na Inglaterra, e no ETC (centro tecnológico) itinerário, que é montado em cada corrida. Ao mesmo tempo, a transmissão tem convivido com críticas constantes dos espectadores.
A grande queixa é que nem todos os lances importantes para as corridas de todos os pilotos são mostrados, nem usando o replay. Os brasileiros, por exemplo, tentando acompanhar a corrida de Gabriel Bortoleto, não viram a bela ultrapassagem dele para cima de Esteban Ocon no GP da Hungria, ou como ele foi ultrapassado fora da pista por Franco Colapinto na Bélgica.
Não coincidentemente, as queixas aumentaram neste ano e é fácil entender o porquê: com o novo regulamento, há mais trocas de posição, muitas delas motivadas pela diferença de bateria entre os carros. E isso tornou a decisão do diretor da transmissão, Phil Rorke, ainda mais difícil, ao mesmo tempo em que ele ainda se acostuma com a possibilidade de usar uma segunda tela para ajudar a contar a história das '22 bolas'.
Como funciona a transmissão da F1
É importante salientar que, tanto Locke, quanto Roske, são os mesmos profissionais que estão à frente da transmissão da F1 há quase 30 anos. Ao longo deste período, uma a uma, a geração de imagens de todos os GPs foram ficando nas mãos deles - antes disso, a detentora dos direitos de cada país era responsável pelas imagens.
Hoje, é uma operação de quase 300 pessoas, divididas entre aqueles que trabalham in loco e na operação de Biggin Hill, visitada pela reportagem do UOL.
Na sala principal, cada pessoa está monitorando 10 câmeras de uma vez, e são 150 no total, entre os vários ângulos onboard que cada carro carrega, mais as câmeras ao redor da pista e as operadas dentro do pitlane.
Então vamos supor que um piloto do meio do pelotão fez uma ultrapassagem, algo que não estará no sinal internacional ao vivo muito provavelmente porque a prioridade é dada aos líderes: o profissional que viu a escapada vai mandar isso como sugestão para o diretor de replay, que fará uma segunda avaliação e decidirá se vai oferecer ao diretor da transmissão em si.
"Tirar do ao vivo é uma das decisões mais difíceis. Nós não temos a facilidade do tênis, por exemplo, em que o diretor pode rodar os replays enquanto não há ação na quadra. Até quando há bandeiras vermelhas, Safety Cars, há ação na pista, como pitstops", explica Locke.
Foi por isso que a F1 introduziu, no início do ano passado, a segunda tela, e Locke admite que eles ainda estão entendendo quais são os melhores usos para isso no contexto da F1. Uma mudança neste ano, por exemplo, foi tirar as celebridades e familiares dos pilotos da tela principal e colocá-los na tela menor, o que aconteceu após críticas pelo foco no extra-pista enquanto havia muita ação dentro dela.
"Tivemos sorte de termos introduzido isso antes, porque de repente a gente começou a ter essas batalhas de três carros ao mesmo tempo pela liderança, o que é muito difícil de deixar de lado. E podemos mostrar outra história na tela adicional."
O diretor ainda está lidando com outras sugestões o tempo todo: a equipe de gráficos busca encontrar formas de explicar o que está acontecendo ou projetar o que está por vir em estratégias, por exemplo. E nisso, também, uma corrida de carros é diferente de outros esportes, pois o líder na pista pode não ser o líder efetivo da prova porque ainda não trocou pneus. E isso precisa ser explicado de alguma forma.
Outra decisão que ele tem que tomar é a respeito dos rádios que são mostrados, que também ajudam a entender o que está acontecendo. O processo é o mesmo: há pessoas monitorando os rádios de todos os pilotos e, se há algo interessante, isso é passado por mais uma triagem antes de ser oferecido já editado para o diretor.
Por que a transmissão tem perdido tanta coisa?
Se compararmos com o que era a transmissão de uma corrida de F1 há 10 anos, o nível de informação à qual se tem acesso é muito maior. Inclusive, neste ano, Locke e sua equipe mudaram o sistema justamente para tirar ainda mais informações do carro e abrir mais possibilidades de usar câmeras onboard ao vivo. E muitas das dificuldades vieram justamente da latência deste sistema, principalmente nas primeiras corridas do ano.
É como se eles tivessem complicado ainda mais a sua vida ao aumentar o cardápio do que pode ser apresentado ao telespectador, ao mesmo tempo em que as corridas em si ficaram mais movimentadas - e, por conta disso, mais difíceis de serem explicadas. Uma tempestade perfeita para erros de julgamento entre o que vale a pena ou não ir ao ar.
Por um lado, é um tipo de mentalidade que é bem a cara da F1, de sempre testar os limites. Por outro, é normal que demore um tempo para que todas as informações disponíveis sejam usadas da melhor forma para acompanhar as '22 bolas'.
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.
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