Acordamos hoje com a sensação de que o fim do mundo decidiu fazer uma turnê pelo Brasil, e com ingressos esgotados. Para quem precisa bater ponto ou garantir o pão de cada dia correndo de bicicleta com uma mochila térmica nas costas, o clima lá fora deixou de ser assunto de elevador e virou uma questão imediata de sobrevivência.
A realidade é que a natureza está cobrando a fatura do nosso negacionismo ambiental de décadas e com juros altíssimos. No Rio Grande do Sul, ainda profundamente traumatizado por tragédias recentes com centenas de mortos pelas chuvas, a passagem de um ciclone com ventos que ultrapassaram os 120 km/h e a formação de um tornado destelharam casas e trouxeram o pânico de volta.
Enquanto isso, a Defesa Civil e o Inmet espalham alertas laranjas e amarelos de ventania severa para mais de uma dezena de estados. Não se trata apenas de uma frente fria rigorosa, mas de um ciclone extratropical com potencial de "ciclone bomba" que resolveu bagunçar a vida de milhões de brasileiros.
Em São Paulo, a ventania que promete chegar aos 100 km/h já foi suficiente para paralisar as balsas e fechar o canal de navegação do Porto de Santos logo cedo. Prefeituras do litoral paulista precisaram suspender as aulas na rede pública para tentar proteger as crianças.
Já no Rio de Janeiro, o roteiro do caos climático tem requintes de crueldade: em pleno inverno, os termômetros bateram a marca dos 37°C, e a combinação de secura extrema com rajadas de até 110 km/h vai transformar o estado em um barril de pólvora, com risco altíssimo de incêndios florestais e chamas já consumindo áreas de conservação.
O problema central é que, quando as autoridades e as concessionárias de energia (sempre prontas para emitir notas sobre sua competência quando a luz pisca e some) pedem para a população evitar deslocamentos desnecessários e buscar abrigos seguros, elas parecem esquecer de combinar isso com os russos, quer dizer, com estrutura social do nosso país. Ficar protegido em casa, esperando o vendaval passar, é um privilégio quase exclusivo de quem tem home office, internet por fibra ótica e geladeira cheia. Ou que a casa não fique na encosta de um barranco ou num fundo de várzea.
Para a imensa maioria da classe trabalhadora, a ordem do patrão é muito clara: o ciclone que espere, porque o lucro não pode parar.
É a faxineira que reza silenciosamente para nenhuma árvore cair sobre o ônibus lotado a caminho do serviço. É o entregador de aplicativo que equilibra o próprio corpo contra o vento rasgando a avenida, sabendo que o cliente quer o almoço na hora exata e o algoritmo não aceita desculpas de força maior. É o gari que já tem que desviar de idiotas ao volante agora terá que lutar para não ser arrastado ao coletar lixo.
O caos climático é indiscutivelmente democrático na hora de assustar, mas a nossa desigualdade crônica garante que a corda arrebente, como sempre, do lado mais fraco e desprotegido.
Enquanto isso, na eleição, a adaptação das cidades e políticas de mitigação para os eventos climáticos extremos das mudanças climáricas tem menos espaço que as fake news sobre vacina e cloroquina.
Entre alertas apitando no celular, cabos rompidos caindo no asfalto e telhas voando pelos ares, o brasileiro comum não pede muita coisa nesta sexta-feira.
Ele apenas olha para o céu escuro, calcula mentalmente a rota de fuga entre ruas alagadas e postes balançando e torce para conseguir realizar o mais básico dos direitos: voltar inteiro para casa no fim do dia.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL