Foi durante uma reunião ministerial em julho de 2022 que o ex-presidente Jair Bolsonaro fez críticas a Luiza Trajano e afirmou que "a única empresária de esquerda estava afundando". À época, circulavam rumores de que a presidente do conselho do Magazine Luiza teria sido convidada para compor a chapa de Luiz Inácio Lula da Silva como vice-presidente. Trajano sempre negou a existência do convite, mas admite que ainda convive com o assunto em 2026.
A empresária não se incomoda com o rótulo que foi colado por uma parte do eleitorado e diz que tem, desde pequena, a proposta de ser protagonista do Brasil. Não busca unanimidade e ressalta que a posição que alcançou carrega ônus e bônus, mas que é uma irresponsabilidade prejudicar o Magazine Luiza por posições pessoais que considera democráticas e suprapartidárias.
Uma das iniciativas que contou com o apoio do grupo foi a lei que estabeleceu uma cota de 30% para mulheres nos conselhos das empresas estatais e de capital misto. "Cota é processo transitório para corrigir uma desigualdade", apoia Trajano. Ela conta que passou a apoiar a adoção de cotas quando percebeu que não dava o devido espaço a deficientes em suas empresas. A empresária defende a premissa de que a meritocracia no mercado de trabalho só existe quando duas pessoas partem de um mesmo ponto, e afirma que o período de escravidão no Brasil provocou atrasos de ordem social e econômica que acentuaram a desigualdade no país.
As posições firmes e francas dão lugar à cautela quando o assunto é o fim da escala 6x1. A empresária não tem se posicionado sobre o tema e prefere ouvir todos os lados antes de tomar partido. Compara que é um direito do trabalhador ter folgas e mais tempo com a família, mas que a remuneração e a produtividade não podem ser afetadas. "Eu sinto que virou mais uma polêmica de dois lados", reflete.
Reconhece que as bets afetam as vendas do Magazine Luiza, mas conclui que o vício em apostas e jogos de azar é um problema de saúde pública que afeta tanto os funcionários jovens quanto as pessoas que trabalham há 20 anos em uma mesma empresa.
Luiza Trajano discorda da tese de que mulher não vota em mulher e acredita em uma grande mudança na composição de deputados e senadores nas eleições de outubro. "Começaram a entender que a mulher é um poder de decisão econômica", diz. Filha de Jacira Trajano Inácio e sobrinha de Luiza Trajano Donato, ela não coloca o gênero como maior dificuldade em sua trajetória profissional. "Eu aprendi cedo a lidar com isso, eu nasci de uma família em que a mulher já trabalhava. Mesmo quando eu era a única mulher em uma sala, eu dizia que era bom eles me escutarem porque eu tinha uma ideia boa", afirma.
O Grupo Mulheres do Brasil é liderado por Luiza Trajano e organiza entre os dias 4 e 5 de agosto o Summit Mulheres nas Profissões. Uma pesquisa do LinkedIn aponta que as mulheres representam 45,2% da força de trabalho do Brasil, mas ocupam apenas 32,2% dos cargos de gestão. Trajano trabalha para aumentar esse percentual para 50% até 2030.
Pouco mais de 32% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres no Brasil. Se fala em chegar a 50% até 2030. Na sua opinião pessoal, quais as três principais iniciativas, sejam de caráter público ou privado, que podem permitir esse crescimento no curto prazo?
Eu acho que uma das coisas está chegando agora. A gente sente que, de um ano e meio para cá, a mulher passou a ser muito mais vista. A maioria quer uma mulher de vice-presidente. Acho que é entender que a mulher resolve até o carro, a televisão e tudo o que vai comprar. Ela é um poder de decisão econômica. Percebo que estive em vários lugares em que eu era a única mulher e pude ver como é importante o papel de uma mulher junto com o homem. Ela equilibra muito mais uma reunião e uma estratégia porque ela está na ponta. Não vamos organizar só um summit, é um movimento que vai durar até 2030, quando a gente quer ter 50% de mulheres em altos cargos. A gente convidou muitos homens também. Nós não estamos querendo o lugar do homem, a gente só está pedindo 50%.
Os leitores podem questionar as políticas de diversidade do Magazine Luiza. As mulheres são maioria nos cargos de gestão da empresa? Qual tipo de lição pode ser dada para as outras companhias?
Eu não sairia falando se eu não tivesse política de diversidade. Nós fomos os primeiros a fazer movimentos para as pessoas que têm deficiências e para os negros. Aqui, nunca se cogitou mulher ganhar menos que o homem. Nós temos 40% de mulheres em conselho. Brinco que existem muito mais mulheres como gerentes de lojas e que, daqui a pouco, nós vamos ter cotas para homens. O Magazine Luiza dá o exemplo. A gente ganha muitos prêmios porque, independente do que falam ou não, até de mim, e gente que não tem razão porque eu nunca me filiei a partido, mas desde pequena eu tenho muitas causas e me sinto protagonista do Brasil. A gente está levando avante todas as crenças que uma empresa pode ter não só para gerar empregos, como também ajudar para que o país seja melhor.
A senhora disse em um evento que a velocidade das redes sociais dita a forma como as empresas lidam com uma série de temas. A senhora entende que as fake news, ou mesmo a polarização política do Brasil, podem atrapalhar o desenvolvimento das pautas de diversidade?
Eu não sei se é o algoritmo, mas eu recebo tudo o que ele sabe que eu gosto. Como eu gosto muito dessa pauta, vejo hoje uma defesa muito maior do que se via quando começamos. Se existe o lado que fala que a mulher não deve votar, existe um movimento que não vai deixar a mulher não votar. A união das mulheres hoje é muito maior. Antes de fazer o summit, eu chamei todos os principais movimentos que protegem as mulheres para estarem conosco. Não é uma causa do Grupo Mulheres do Brasil, é uma causa das mulheres do Brasil.
A senhora brincou ao dizer que teriam que existir cotas para homens dentro das lojas. O governo promulgou uma lei que estabelece um percentual mínimo de 30% de mulheres nos conselhos das empresas estatais e de capital misto no Brasil. As cotas dividem opiniões e geram muito debate. A senhora entende que este é o caminho mais correto e que foi uma decisão acertada?
Não só foi acertada, como o Grupo Mulheres do Brasil ajudou a pautar e a aprovar cotas para empresas mistas e empresas públicas. A gente queria que fossem para todas, mas por enquanto aceitamos assim. Cota divide muito enquanto ele não entende o que é cota. Quando ele entende que cota é um processo transitório para acertar uma desigualdade, você não tem como ser contra cota. O Brasil teve 389 anos de escravidão. Nós tivemos um atraso em todo o sentido social e econômico. Para você tirar essa desigualdade, não dá para esperar a meritocracia como o pessoal que é contra a cota defende. Meritocracia é quando a partida é igual. Quando a partida não é igual, não é legal. Quando a pessoa entende que cota é um processo transitório para acertar uma desigualdade, ela tira aquela crença limitante que tem. Quando saíram as cotas para deficientes, há muito tempo, eu vi que nunca tinha olhado para o deficiente. Foi então que eu aprendi que, a partir daquele dia, eu ia ser a favor das cotas.
A senhora é uma defensora dos direitos humanos, mas sofre muitos ataques nas redes sociais de pessoas que ligam a senhora ao presidente Lula. Como lidar com a velocidade das redes sociais quando elas vão contra si?
Nem tudo é contra. Eu tenho 85% que são a favor. Enquanto não prejudica o Magazine Luiza, está tudo certo, porque quando passa desse ponto, está prejudicando 80 mil empregos que geramos, sejam diretos ou indiretos. Acho que é uma irresponsabilidade prejudicar o Magazine por uma posição que é minha, por uma posição democrática. Tenho o direito de defender causas. Eu não precisava estar defendendo. O que me deixa mais triste é quando ofende. Por outro lado, vou ter sempre pessoas que são a favor. Nunca vou ser unanimidade, eu nem espero isso. Então, para te falar a verdade, tenho desde os 13 anos a proposta de ser protagonista do Brasil. A empresa está há 30 anos entre as melhores empresas para se trabalhar, sem nunca ter saído. Tenho que seguir fazendo o que acredito. Nunca perguntei para a pessoa que trabalha comigo para quem ela ia votar. Eu nunca instiguei nenhum voto. Não fui convidada para ser vice do presidente Lula, mas é o que você falou. Quando sai nas redes sociais, não adianta desmentir. Você tem o ônus e o bônus de qualquer posição que você tomar. Não tem como eu só ter o bônus da posição que eu tomar. Só tem uma forma, se eu não fizer nada, se eu ficar quieta e se eu não lutar por nada. Só que eu te digo que se eu tivesse que recomeçar, eu continuaria lutando pelo negócio que tenha lucro, mas que tenha propósito. Quando você envelhece, ter um grupo e um propósito te deixa mais nova e mais cheia de vida.
Outra grande mobilização no mercado de trabalho é o fim da escala 6x1. O varejo é um dos setores mais expostos a essa possível mudança no regime trabalhista. A senhora também é favorável ao fim da escala 6x1 no Brasil?
É uma coisa muito polêmica porque, assim como um funcionário precisa ter o descanso, você não pode diminuir produtividade. É uma causa que precisa ser muito conversada entre todos os segmentos. Precisamos ouvir e escutar. Eu não sou nem contra e nem a favor, eu estou escutando a população porque é um direito dela também ter folga. Por exemplo, a mulher que trabalha seis dias por semana, ela não fica quase com a família. Por outro lado, ela precisa ganhar. Não pode afetar o salário dela, não pode afetar as leis do país e não pode afetar a produtividade. Como é que nós vamos resolver essa situação? Só conversando, só dialogando para chegar em um acordo.
A senhora entende que essa discussão é endereçada de forma correta pelos deputados e senadores? Falta ouvir algum dos lados?
Não, estou sentindo que virou mais uma polêmica de dois lados, sabe? Mais uma polêmica que não estão parando para conversar. Tudo está virando polêmica. Tudo está virando o sim pelo não, ainda mais num ano eleitoral.
Pesquisas apontam que quase 70% dos usuários de bets no Brasil são homens, mas as mulheres também são atingidas, seja para cobrir um rombo financeiro ou convencer um filho a parar de apostar. A senhora acredita que a regularização das apostas online foi devidamente tratada pelo governo?
Eu acho que ela nem foi regulamentada direito. As bets estão atingindo a classe mais simples, estão atingindo aquela equipe da ponta, estão atingindo uma classe que se endivida com ilusões de que vai ganhar. Depois precisam pegar dinheiro com agiotas e a pressão é tão grande que as empresas, de modo geral, estão tendo que dar cobertura de saúde mental. Lógico que existem outros motivos, mas a maioria é por esse motivo. São pessoas que perdem o emprego porque não estão aguentando mais. Virou um vício. Estou te respondendo porque eu convivo com isso nas empresas. Agora, alguma medida tem de ser tomada. Vai ser difícil? Vai. Só que são tanto as pessoas que têm 19 anos de empresa quanto os jovens que estão chegando agora.
A senhora teme que as bets também prejudiquem os negócios?
Eu sinto que prejudica a própria venda porque as pessoas vão gastar, vão se endividar e não vão ter dinheiro para comprar. Eu adoro vender, eu gosto de ter a venda, eu venho da área comercial, mas a minha maior preocupação ainda é com a saúde mental. É muito mais sério do que a gente pode pensar.
A desigualdade de gênero foi a maior dificuldade que a senhora teve que superar ao longo da vida?
Não, eu não acho que foi a maior dificuldade. Eu aprendi cedo a lidar com isso. Se eu não estava sendo ouvida, eu falava. Eu venho de uma família que já fazia isso quando eu nasci. Para mim, foi muito mais fácil. Eu nasci de uma família empreendedora em que a mulher já trabalhava. Quando eu me dei conta da dificuldade das outras mulheres, passei a lutar muito. Eu lutei, mas não foi nem por minha própria dificuldade, porque eu não me deixei levar. Mesmo quando eu era do interior e chegava aqui sem ser conhecida, eu falava que era bom eles me escutarem porque eu tinha uma ideia boa.
E o que te levou a promover iniciativas como o Summit Mulheres nas Profissões? Alguma injustiça ou questão pessoal?
É sentir que nós evoluímos nesses 13 anos e que a gente precisava dar mais um salto, já estava na hora. Porque não adianta você fazer uma coisa que não está na hora. De 13 anos de Mulheres do Brasil, nos últimos dois anos, a gente percebeu que a mulher foi muito mais olhada do que antes. Se a gente não fizer esse movimento, podemos voltar para trás. O movimento é para mudar de ciclo.
Falta um maior destaque e protagonismo das mulheres na política?
É o que a gente está lutando. A política tem 18% de representatividade e a gente precisa ter 50% o mais rápido possível. Falavam que mulher não votava em mulher. Você vai ver que esse ano vai ter uma mudança. Vai se surpreender. Mulher vai votar em mulher.
É retrógrado o debate que coloca a mulher como a candidata ideal à vice-presidência?
Pode ser retrógrado, como alguns acham, mas acho que é um sinal de que a mulher está dando voto. Depende do lado que você olhar, porque antigamente nem se falava isso. Hoje, quase todos os partidos querem ter uma mulher. Estrategicamente, a mulher vai levar voto. Numa democracia, o que manda é voto.
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