O governo paraguaio recebeu hoje o embaixador do Brasil no país, José Antonio Marcondes, e entregou a ele uma nota de repúdio após declarações do presidente Lula (PT) sobre a Guerra do Paraguai.
O que aconteceu
O Paraguai informou que expressou, no texto, seu "desagrado e rejeição absoluta" às falas do líder brasileiro. Do encontro, também participaram o vice-presidente, Pedro Alliana, e o ministro das Relações Exteriores, Rubén Ramírez Lezcano.
O posicionamento oficial argumenta que o comentário de Lula apresentou o evento histórico "de forma distorcida". Na sexta-feira (24), o líder brasileiro afirmou em discurso que "não podemos esquecer que, certa vez, o Paraguai decidiu invadir o Brasil". A fala foi feita ao defender mais investimentos para que as Forças Armadas fossem "bem preparadas e treinadas".
A distorção dos fatos históricos não contribui para consolidar o futuro comum de ambos os povos, mas sim reabre antigas feridas. Ministério das Relações Exteriores do Paraguai
Autoridades paraguaias chamaram, na carta, o Paraguai e o Brasil de "países irmãos", que compartilham "ampla agenda de cooperação". O documento, ainda conforme a pasta, relatou ainda que o Paraguai está disposto a se reconciliar por meio da restituição de troféus de guerra e do acesso à documentação histórica.
O governo do Brasil ainda não se pronunciou publicamente após o recebimento da nota. A reportagem será atualizada caso o faça.
Entenda a crise diplomática
Deputados e senadores paraguaios repudiaram a declaração. "Lula, você está falando com demasiada leveza sobre a maior tragédia da nossa história, o maior genocídio do nosso continente", afirmou o presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre. Já o Presidente do Congresso, Basilio Nuñez, disse que as falas de Lula provocaram reação por tocarem em um episódio que faz parte da memória e identidade nacional dos paraguaios.
Lula se referia à Guerra do Paraguai, como o conflito é conhecido no Brasil, ou Guerra da Tríplice Aliança, como é chamada no Paraguai. Travada entre 1864 e 1870, durante o Segundo Reinado de dom Pedro II, ela opôs o Paraguai à aliança formada pelo Império do Brasil, Argentina e Uruguai e foi o maior conflito armado da história da América do Sul. Dezemone lembra que a guerra projetou figuras que se tornariam patronos das Forças Armadas brasileiras, como o Duque de Caxias, no Exército, e o almirante Tamandaré, na Marinha.
A afirmação de Lula de que o Paraguai invadiu o Brasil corresponde, de fato, ao que ocorreu. Segundo o historiador Marcus Dezemone, professor da UFF e da UERJ e pesquisador em História do Brasil Republicano, em dezembro de 1864, tropas paraguaias invadiram a então província de Mato Grosso.
Historiador destaca, porém, que há nuances importantes que não podem ser ignoradas. A invasão não explica, sozinha, as origens da guerra. O conflito foi precedido por disputas regionais envolvendo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, incluindo a intervenção militar do Império brasileiro na guerra civil uruguaia, considerada por parte da historiografia um fator importante para a escalada da crise.
Segundo o professor, a historiografia — ou seja, as interpretações construídas sobre os acontecimentos históricos — influencia a forma como a guerra é lembrada. Cada país desenvolveu uma narrativa distinta sobre o conflito e, mesmo no Brasil, diferentes interpretações foram ensinadas ao longo das décadas, fazendo com que gerações tenham visões diversas sobre suas causas e consequências.
Dezemone avalia que tanto a fala de Lula quanto as críticas paraguaias são interpretações parciais de um episódio complexo. "O conflito envolve questões mais profundas, ligadas à construção dos Estados nacionais, ao controle da região do Prata e às diferentes narrativas produzidas sobre essa guerra desde o século 19", afirma.
'Sentimento de desconfiança'
É consenso entre os historiadores que o Paraguai saiu devastado do conflito. Embora a guerra tenha envolvido Argentina e Uruguai, a maior parte dos combates ocorreu em território paraguaio e teve como principais adversários os exércitos do Paraguai e do Império do Brasil. Estimativas indicam que o país perdeu entre 50% e 70% de sua população total e cerca de 90% dos homens adultos. Além disso, teve sua economia destruída, perdeu parte do território e permaneceu ocupado por tropas brasileiras até 1876.
Segundo Dezemone, o legado da guerra ainda influencia a relação entre os dois países. O historiador afirma que parte da sociedade paraguaia mantém um sentimento de desconfiança em relação ao Brasil, tanto pelo trauma histórico da guerra quanto pela assimetria econômica e política que se consolidou desde então. Entre os exemplos estão a longa presença de capitais brasileiros no agronegócio no Paraguai e disputas históricas em torno de Itaipu, frequentemente mobilizadas no debate político do país.
A guerra também foi decisiva para a construção do Estado nacional paraguaio. A derrota passou a ocupar um lugar central na identidade nacional, fortalecendo uma memória coletiva baseada na resistência e no sacrifício diante de uma guerra vista, no país, como uma tragédia fundadora.
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